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#Comédias#Literatura Brasileira

Lição de Botânica

Por Machado de Assis (1906)

– Creio que V. Exa. não me fica querendo mal?  


D. LEONOR 

— Certamente que não.  


BARÃO, cumprimentando 

— Minha senhora!  


D. LEONOR 

— Senhor barão!  


BARÃO, vai até a porta e volta  

— A Sra. D. Helena não lhe falou agora?  


D. LEONOR 

— Sobre quê?  


BARÃO 

— Sobre umas lições de botânica...  


D. LEONOR 

 — Não me falou em nada...  


BARÃO, cumprimentando

— Minha senhora!  


D. LEONOR, idem 

— Senhor barão! (Barão sai.) Que esquisitão! Valia a pena  cultivá-lo de perto.  


BARÃO, reaparecendo 

— Perdão...  


D. LEONOR 

— Ah! que manda?  


BARÃO, aproxima-se 

— Completo a minha pergunta. A sobrinha de V. Exa. falou me em receber algumas lições de botânica. V. Exa. consente? (Pausa.) Há de parecer-lhe  esquisito este pedido, depois do que tive a honra de fazer-lhe há pouco...  

  

9 Relativo ao povo dos sicambros, povo germânico do qual descendem os suecos. 



D. LEONOR 

— Sr. barão, no meio de tantas cópias e imitações humanas...  


BARÃO 

— Eu acabo: sou original.  


D. LEONOR 

— Não ouso dizê-lo.  


BARÃO 

— Sou; noto, entretanto, que a observação de V. Exa. não responde à  minha pergunta.  


D. LEONOR 

— Bem sei; por isso mesmo é que a fiz.  


BARÃO 

— Nesse caso...  


D. LEONOR 

— Neste caso, deixe-me refletir.  


BARÃO 

— Cinco minutos?  


D. LEONOR 

— Vinte e quatro horas.  


BARÃO

— Nada menos?  


D. LEONOR 

— Nada menos.  


BARÃO, cumprimentando 

— Minha senhora!  


D. LEONOR 

— Senhor barão! (Sai o barão.)  


Cena XI  

D. Leonor, D. Cecília  


D. LEONOR 

— Singular é ele, mas não menos singular é a idéia de Helena. Para  que quererá ela aprender botânica?  


D. CECÍLIA, entrando 

— Helena! (D. Leonor volta-se.) Ah! é titia.  


D. LEONOR 

— Sou eu.  


D. CECÍLIA 

— Onde está Helena?  


D. LEONOR 

— Não sei, talvez lá em cima. (D. Cecília dirige-se para o fundo.)  Onde vais?...  


D. CECÍLIA

— Vou...  


D. LEONOR 

— Acaba.  


D. CECÍLIA 

— Vou consertar o penteado.  


D. LEONOR 

— Vem cá; conserto eu (D. Cecília aproxima-se de D. Leonor.) Não é  preciso, está excelente. Dize-me: estás muito triste!  


D. CECÍLIA, muito triste 

— Não, senhora; estou alegre.  


D. LEONOR 

— Mas, Helena disse-me que tu...  


D. CECÍLIA 

— Foi gracejo.  


D. LEONOR 

— Não creio; tens alguma coisa que te aflige; hás de contar-me tudo.  


D. CECÍLIA 

— Não posso.  


D. LEONOR 

— Não tens confiança em mim?  


D. CECÍLIA 

— Oh! toda!  


D. LEONOR 

— Pois eu exijo... (Vendo Helena, que aparece à porta do fundo, à  esquerda.) 

— Ah! chegas a propósito.  


Cena XII  
D. Leonor, D. Cecilia, D. Helena  


D. HELENA

— Para quê?  


D. LEONOR 

— Explica-me que história é essa que me contou o barão?  


D. CECÍLIA, com curiosidade 

— O barão? 


D. LEONOR 

(continua...)

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