Por Martins Pena (1845)
Jeremias — Não rendia nada; tudo era pouco para os negros comerem, e morrerem muitos.
Bolingbrok — Porque não sabe trabalha.
John — Vendeu duas belas propriedades de casa...
Jeremias — Das quais estava sempre mandando consertar os telhados, por pedido dos inquilinos. Só nisso iam-se os aluguéis.
John — E sabes tu, Bolingbrok, o que fez ele de todo esse capital?
Bolingbrok — Dize.
John — Gastou metade em bailes, passeios, carruagens, cavalos...
Bolingbrok — Oh!
John — E a outra metade emprestou a juros.
Bolingbrok — Este está bom; boa firma, jura doze per cento...
Jeremias — Qual doze, homem!
Bolingbrok — Quante?
Jeremias — A oito por cento ao ano.
Bolingbrok — Oh, Jeremias está doido! A oito per cento? Oh!
John — Assim é que se estraga uma fortuna.
Bolingbrok — Brasileiros sabe mais gasta do que ganha.
Jeremias — Ora, adeus! A vida é curta e é preciso gozá-la.
John — E depois dessa criançada, veio cá para a Bahia e deixou a mulher no Rio de Janeiro.
Jeremias (para Bolingbrok) — Isto também é loucura?
Bolingbrok — Conforme... Quando mulher é má, deixa ela; quando é boa, pega nela.
Jeremias — Pega nela, yes! Mas como a minha era o diabo com saia, eu deixa ela.
Bolingbrok — Yes!
Jeremias — Oh, John, oh, Bolingbrok, se eu tivesse uma mulher como as vossas, então... Que anjos, que docilidade! Eu, se fosse qualquer de vocês, não lhes negava a mais pequena coisa. (À parte:) É preciso prepará-los. (Alto:) Oh, eu os julgo incapazes de as tratar mal! Nem me passa isso pela cabeça.
Bolingbrok — Mim não nega coisa razoável. (Levanta-se.)
John — Nem eu. (Levanta-se.)
Jeremias (levantando-se e à parte) — Não gostaram do conselho... (Alto:) Enfim, cada um faz o que entende.
Bolingbrok — Yes.
Jeremias — Adeus, John, tenho muito que passear, e é tarde. Farewel, my dear Bolingbrok. How do you do? Give me some bread. I thank you. Hem? Tem que dizer a esta bela pronúncia? Até logo. (À parte:) É preciso deixá-los com as mulheres... (Alto:) Adeus! Sejam amáveis. (Sai cantando.)
CENA V
Bolingbrok e John
Bolingbrok (passeando) — Mim está desconfiado...
John — Dar-se-á, acaso, que nossas mulheres se tenham queixado a Jeremias?
Bolingbrok — Mim pensa... Clarice quer passeia, quer dança, quer theater, e mim não pode, mim não quer...
John — E fazes bem. De que servem tantas folias, senão para perdição das mulheres?
Bolingbrok — John, eu não quer perde perde Clarice, mas eu está muito aflita...
Clarice está zangado comiga.
John — Não te dês disso; os arrufos fazem agradável a reconciliação.
Bolingbrok — Oh, mais palavra de amor é tão doce, e palavra de briga é tão, tão repiada...
John — Bolingbrok, meu caro sócio, desconfia sempre de três qualidades de mulher: primeiro, das que só palavras: meu amorzinho, meu bem, meu ladrãozinho, e vos acarinham as faces com a mão; segundo, das que te rodeiam de atenções e cuidados quando te estás vestindo para saíres; e terceiro, das que te fazem presentinhos de suspensórios bordados, bolsa para relógio, paninhos para barba, etc. É que te querem assim causar agradáveis surpresas. Desconfia dessas, sobretudo. De surpresa em surpresa atiram com o homem ao inferno...
CENA VI
Virgínia, Clarice e os mesmos.
Virgínia (à porta e à parte para Clarice) — Ei-los! Experimentemos. (Encaminhamse para os dois sem vistas.)
Bolingbrok — Oh, oh, John, eu me lembrarei, John... Minha amorzinho, minha ladrãozinho, não quer... Ni presentes, ni carinhas... Oh, non!
Virgínia (tomando John pelo braço) — Meu bom maridinho!
John — Ah, sois vós, Virgínia?
Clarice (tomando Bolingbrok pelo braço) — Meu amorzinho!
Bolingbrok — Clarice! (À parte:) Disse: minha amorzinho...
Virgínia (para John) — O chá estava bom?
John — Não achei mau.
Clarice (para Bolingbrok) — Gostaste do chá, meu ladrãozinho?
Bolingbrok (à parte) — Oh, minha ladrãozinho!...
Virgínia (para John) — Não vais hoje passear?
John — Oh, tanto cuidado!
Clarice — Não passeias? (Passando-lhe a mão pela barba.)
Bolingbrok — Oh!
Virgínia — Que tensJohn? Acho-te assim, não sei como...
John — Nada, nada, absolutamente!
Clarice (para
Bolingbrok) — Por que te espantas?
(continua...)
PENA, Martins. As Casadas Solteiras. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17001 . Acesso em: 28 jan. 2026.