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#Contos#Literatura Brasileira

Linha reta e linha curva

Por Machado de Assis (1871)

- Já uma cousa fez como muita gente. 

- Qual foi? 

- Prometeu-me ontem esta visita e veio cumprir a promessa. 

- Ah! minha senhora, não lance isto à conta das minhas virtudes. Podia não vir; vim; não foi vontade, foi... acaso. 

- Em todo caso, agradeço-lhe. 

- É o meio de me fechar a sua porta. 

- Por quê? 

- Porque eu não me dou com esses agradecimentos; nem creio mesmo que eles possam acrescentar nada à minha admiração pela pessoa de Vossa Excelência. Fui visitar muitas vezes as estátuas dos museus da Europa, mas se elas se lembrassem de me agradecer um dia, dou-lhe a minha palavra que não voltava lá. 

A estas palavras seguiu-se um silêncio de alguns segundos. Emília foi quem falou primeiro. 

- Há muito tempo que se dá com o marido de Adelaide? 

- Desde criança, respondeu Tito. 

- Ah! foi criança? 

- Ainda hoje sou. 

- É exatamente o tempo das minhas relações com Adelaide. Nunca me arrependi. 

- Nem eu. 

- Houve um tempo, prosseguiu Emília, em que estivemos separadas; mas isso não trouxe mudança alguma às nossas relações. Foi no tempo do meu primeiro casamento. 

- Ah! foi casada duas vezes? 

- Em dous anos. 

- E por que enviuvou da primeira? 

- Porque meu marido morreu, disse Emília rindo-se. 

- Mas eu pergunto outra cousa. Por que se fez viúva, mesmo depois da morte de seu primeiro marido? Creio que poderia continuar casada. 

- De que modo? perguntou Emília com espanto. 

- Ficando mulher do finado. Se o amor acaba na sepultura acho que não vale a pena de procurá-lo neste mundo. 

- Realmente o Sr. Tito é um espírito fora do comum. 

- Um tanto. 

- É preciso que o seja para desconhecer que a nossa vida não importa essas exigências da eterna fidelidade. E demais, pode-se conservar a lembrança dos que morrem sem renunciar às condições da nossa existência. Agora é que eu lhe pergunto por que me olha com olhos tão singulares?... 

- Não sei se são singulares, mas são os meus. 

- Então, acha que eu cometi uma bigamia? 

- Eu não acho nada. Ora, deixe-me dizer-lhe a última razão da minha incapacidade para os amores. 

- Sou toda ouvidos. 

- Eu não creio na fidelidade. 

- Em absoluto? 

- Em absoluto. 

- Muito obrigada. 

- Ah! eu sei que isto não é delicado; mas em primeiro lugar, eu tenho a coragem das minhas opiniões, e em segundo foi Vossa Excelência quem me provocou. É infelizmente verdade, eu não creio nos amores leais e eternos. Quero fazê-la minha confidente. Houve um dia em que eu tentei amar; concentrei todas as forças vivas do meu coração; dispus-me a reunir o meu orgulho e a minha ilusão na cabeça do objeto amado. Que lição mestra! O objeto amado, depois de me alimentar as esperanças, casou-se com outro que não era nem mais bonito, nem mais amante. 

- Que prova isso? perguntou a viúva. 

- Prova que me aconteceu o que pode acontecer e acontece diariamente aos outros. 

- Ora... 

- Há de me perdoar, mas eu creio que é uma cousa já metida na massa do sangue... 

- Não diga isso. É certo que podem acontecer casos desses; mas serão todos assim? Não admite uma exceção? Aprofunde mais os corações alheios se quiser encontrar a verdade... e há de encontrar. 

- Qual! disse Tito abaixando a cabeça e batendo com a bengala na ponta do pé.

- Posso afirmá-lo, disse Emília. 

- Duvido. 

- Tenho pena de uma criatura assim, continuou a viúva. Não conhecer o amor é não conhecer a vida! Há nada igual à união de duas almas que se adoram? Desde que o amor entra no coração, tudo se transforma, tudo muda, a noite parece dia, a dor assemelha-se ao prazer... Se não conhece nada disto, pode morrer, porque é o mais infeliz dos homens. 

- Tenho lido isso nos livros, mas ainda não me convenci... - Já reparou na minha sala? 

- Já vi alguma cousa. 

- Reparou naquela gravura? 

Tito olhou para a gravura que a viúva lhe indicava. 

- Se me não engano, disse ele, aquilo é o Amor domando as feras. - Veja e convença-se. 

- Com a opinião do desenhista? perguntou Tito. Não é possível. Tenho visto gravuras vivas. Tenho servido de alvo a muitas setas; crivam-me todo, mas eu tenho a fortaleza de S. Sebastião; afronto, não me curvo. 

- Que orgulho! 

- O que pode fazer dobrar uma altivez destas? A beleza? Nem Cleópatra. A castidade? Nem Susana. Resuma, se quiser, todas as qualidades em uma só criatura, e eu não mudarei... É isto e nada mais. 

(continua...)

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