Por José de Alencar (1872)
- Pois bem. Uma noite, seriam duas horas da madrugada, chovia a cântaros, quando batem-lhe à porta. Era um chamado a toda a pressa para a casa do Soares; a carta era instante; o carro estava à espera. O velho doutor consultou todas as juntas do corpo para ver se não tinha algum travo de reumatismo, que o desculpasse com o capitalista e a consciência. Achando-se perfeitamente lépido, não teve remédio senão erguer-se e partir.
- Fez sua obrigação.
- Sem dúvida. Chegando o doutor foi recebido pela Guida...
- A filha?
- Sim; a qual muito aflita comunicou-lhe que o incomodara àquela hora da noite para ver Sofia, que estava muito mal, a decidir, de uma moléstia do coração. O doutor conhecia melhor o dinheiro do que a família do capitalista; não sabia pois de quem se tratava; pensou porém que devia ser uma pessoa importante da casa. Acompanhou a moça a uma alcova frouxamente iluminada por uma lamparina, onde havia um leito envolvido em alvos cortinados de filó. O doente parecia uma criança; estendendo a mão para tomar-lhe o pulso, sentiu o médico um pêlo macio; aproximou a vela e então distinguiu perfeitamente uma cachorrinha, deitada em travesseiros de cetim e coberta com uma colcha de damasco.
- Será exato isto?
- Asseguro-te que é. Faze idéia de como ficou o doutor, arrancado à sua casa à uma hora da noite, e rebaixado do seu pedestal de médico do que há de mais ilustre e elevado na corte, a médico de cão. Se a graça fosse de qualquer outra pessoa, ele decerto não a suportaria; mas era de uma moça bonita. O velho assentou que o melhor meio de sair-se do caso era levá-lo em tom de galhofa... “Ah! É sua maninha?” disse ele. Examinou com uma gravidade cômica o doente, pediu papel e receitou neste gosto: “Récipe: Uso interno: Maçada – 2 oit. Capricho de criança – 1 onça. Misture e faça infusão para tomar às colheradas de hora em hora. Uso externo: Gargalhada – 3 oitavas. Paciência – 1 libra. Faça uma fomentação. Para a Srª. D. Sofia Soares. Dr. F.” Entregou a receita à menina, e assegurou-lhe que D. Sofia se restabeleceria brevemente.
- Era pachorrento o doutor.
- Que havia ele de fazer; dar a cavaco? Mas escuta o resto. É um romance. A Guida mandou a receita à botica da casa. Podes bem avaliar do como ficaria embaraçado o boticário para aviá-la: nunca na sua vida tinha manipulado semelhantes drogas. Mas a menina fez-lhe saber muito positivamente, que se não mandasse os remédios receitados pelo médico perderia a freguesia. Nestes apertos passou-lhe o doutor pela porta; contou-lhe o que sucedia; o velho desatou a rir. “Olhe; maçada, é qualquer amargo. Capricho de menina, umas cócegas, como as que produz o súlfur. Gargalhada, um pouco de muriato no pêlo da cachorrinha, e verá que boas risadas ela dá. Paciência, isso é um emoliente, farinha de linhaça.” O boticário aproveitou a lembrança e aviou a receita. Se a Sofia tomou o remédio não sei; mas ficou boa.
- Então é mais provável que não tomasse.
- Estou por isso. Tempos depois aparecendo o doutor em sua casa, a Guida exigiu a conta da visita feita à Sofia. O velho, julgando-se autorizado pelos sessenta anos e pelo gracejo da menina, disse-lhe que o preço era um beijo. Nesse momento chegava à porta a mestra, uma inglesa gorducha e míope.
- Naturalmente uma que vi passar...
- É a tal. A Guida corre a ela; inventa de repente uma história da chegada imprevista do marido, uma alegre surpresa; e acaba mostrando-lhe o vulto do doutor, que não entendia a conversa por ser em inglês. A mestra precipita-se como uma bala de canhão, agarra-se ao pescoço do velho, e cobre-o de uma chuva de beijos sonoros e cheios, verdadeiros beijos de lei, pesando 24 quilates cada um.
- E o doutor?
- Quando se pôde desvencilhar dos braços e da boca da gorducha, viu Guida que ria de sua triste figura: “Está vendo, doutor, como eu pago generosamente as minhas dívidas. O senhor pedia um beijo, e leva algumas dúzias deles”. O velho limpava a cara, enquanto a inglesa esfregava os beiços como se lhes quisesse tirar a pele. Não achas engraçada a anedota, Ricardo?
- Acho que essa moça tem pouco juízo.
- Juízo tem ela; mas é juízo de moça rica, muito diferente do juízo de moça pobre. O velho Soares é uma máquina de fazer dinheiro; vive no escritório. A mulher, esta suporta a sua opulência como um cativeiro. Os outros filhos ainda estão no colégio. Quem há de suar daquela riqueza e da posição que ela dá senão Guida?
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.