Por José de Alencar (1875)
D. Genoveva caiu de joelhos, dando graças a Deus que lhe restituia a filha; e quando ergueu-se foi para estreitar ao peito a donzela que se lançara em seus braços.
— E meu pai? interrogou a menina assustada.
— Não lhe aconteceu nada; sossega; ficou atrás para apagar o fogo; eu é que não podia descansar enquanto não te visse perto de mim, livre do perigo… Que desespêro, quando cheguei, e ninguém sabia de ti! Como não morrí, meu Deus!
— Já passou! murmurava D. Flor. Agora sossegue, que aqui está sua filha querida.
— Sim, sim; parece-me que ainda mais te quero depois que te chorei perdida.
A êsse tempo já toda a gente de serviço corria para o lugar do fogo.
Entre as mulheres que cercavam a dama e sua filha, nem uma tomara maior parte nas aflições, como nas alegrias maternais, do que uma sertaneja alta e robusta sem corpulência, que mostrava no semblante rude, porém amorável, uma franqueza de cativar.
Era essa a Justa, a ama de D. Flor, cujo amor pela menina às vezes causava ciúmes a D. Genoveva, tamanha era a devoção da carinhosa aldeã por sua filha de criação.
Apenas se desprendeu dos braços de sua mãe, D. Flor se atirou com efusão à Justa, que esperava essa carícia, como seu foro e juro de segunda mãe. A alentada sertaneja não se contentou com qualquer afago dos que se costumam fazer às moças; tomou a menina ao colo, e conchegandoa a si como fazia outrora quando a trazia aos peitos, comeu-a de beijos desde as macias tranças dos cabelos até à ponta dos pequeninos pés, calçados de coturnos de setim escarlate.
— Olhem só, gentes!… como veio bonita!… Está-se rindo, hein!… Teve saudades de sua mamãe?… Teve!… Teve?… Não havia de ter!… Por que não voltou logo?… A gente tanto tempo aqui penando!… Pois agora há de pagar! Tome! Um, dois, três… cem!… Ah! cuida que não me hei de desforrar?
Tudo isto interrompido por mil carinhos e entremeado dessa ingênua garrulice com que as
mães falam aos filhinhos de colo, e que êles parecem entender: misteriosa linguagem do mais sublime afeto, formada de arrulhos, de carícias e de ternos balbucios.
D. Flor deixava-se acariciar; e cheia de risos, mostrava no semblante o contentamento que sentia banhando-se nessas efusões de amor.
— Então lembrou-se muito de mim, mamãe Justa? disse D. Flor.
— Nem se fala, gente!
A donzela pôde enfim receber as festas das companheiras da Justa. Com todas mostrou-se afetuosa, porém mais especialmente com uma moça que no seu tímido receio não ousava aproximar-se.
— Adeus, Alina, vem abraçar-me.
Entraram afinal as duas senhoras na sala principal.
— Ainda não me disseste, Flor! tomou D. Genoveva, sentando-se no sofá e chegando a filha para junto de si, como que ainda receosa de que lha arrebatassem. O fogo assustou-te muito, ou não havia nada quando passaste?
— Pensei morrer! exclamou D. Flor erriçando-se à lembrança do transe horrível que passara. Está bom; não fique outra vez aflita! Para que falar mais destas coisas?
— Não; conta, Flor!
— Foi um milagre. O baio espantadiço empacou; a princípio não sabia o que era; quando descobrí o fogo, quis voltar. Estava cercada; via as labaredas correrem para mim, e pareciam-me estarem folgando e rindo do mêdo que me causavam. Mas a fumaça de repente sufocou-me, e não soube mais de mim!… Vi que era chegada a minha última hora e encomendei-me a Deus.
— Jesús! pôde afinal proferir D. Genoveva em quem se repetia a ânsia já passada da filha. E como escapaste, Flor?
— Não sei, minha mãe; respondeu a menina ingenuamente. Disse-lhe já que foi um milagre; não pode ser outra coisa. Nossa Senhora quis valer-me!
— Pois foi mesmo Nossa Senhora da Penha de França! afirmou a Justa, que ouvia de pé. E porisso há de ter a sua novena de arrôjo êste ano, que foi a minha promessa, se trouxesse a minha filha e todos a salvamento.
— Obrigada, mamãe!
— Mas, Flor, como chegaste à casa sem que te acontecesse nada?
— Não posso lembrar-me! respondeu a menina pensativa e evocando do íntimo as vagas impressões que lhe flutuavam no espírito. Desde que a fumaça cobriu-me toda, como se fosse a minha mortalha, não vi mais nada; sé dei acôrdo de mim aqui, neste canapé!…
— Neste canapé ! exclamou D. Genoveva atônita.
— E deitada, como se tivesse dormindo.
— Foi a minha Senhora da Penha, que a trouxe nos braços. Porisso ninguém viu quando chegou.
— É verdade! exclamaram outras vozes de mulher.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.