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#Comédias#Literatura Brasileira

As Asas de um Anjo

Por José de Alencar (1860)

Ribeiro – Não creio em juramentos!

Carolina – Oh! não!

Margarida (de dentro) – Carolina!

Carolina – Minha mãe!

Luís – Margarida!

Carolina – Ah! Estou perdida! (Desfalece nos braços de Ribeiro)

Luís – Silêncio! (Vai fechar a porta. Ribeiro aproveita-se deste momento e sai, levando Carolina nos braços)

CENA XV (Luís e Margarida)

Luís – Ah!... (Corre à janela; ouve-se partir um carro; volta com desespero; vê os laços de fita, apanha-os e beija)

Margarida – Carolina! ...Que é isto, Luís?

Luís (mostrando as fitas) – São as asas de um anjo, Margarida; ele perdeu-as, perdendo a inocência.

Margarida – Minha filha!

ATO PRIMEIRO

(Salão de um hotel. Pequenas mesas à direita e à esquerda. No centro uma preparada para quatro pessoas)

CENA I

(Pinheiro, Helena e José)

Helena – Ainda não chegaram.

Pinheiro – Não há tempo, José, prevenirás o Ribeiro, logo que ele chegue, de que estamos aqui.

José – Sim, senhor.

Helena – O champagne já está gelado?

José – Já deve estar. Que outros vinhos há de querer, Sr. Pinheiro?

Pinheiro – Os melhores.

Helena – Eu cá não bebo senão champagne.

Pinheiro – Por espírito de imitação. Ouviu dizer que era o vinho predileto das grandes lorettes de Paris.

Helena – Não gosto de franceses.

Pinheiro – Pois eu gosto bem das francesas.

Helena – Faz bem! Nós é que temos a culpa! Se fôssemos como algumas que a ninguém têm amor!...

Pinheiro – Qual! Santo de casa não faz milagres.

José Já viu uma dançarina que chegou pelo paquete?

Pinheiro – A que está no Hotel da Europa?

José – Não; está aqui, no número 8.

Helena– Alguém lhe pediu notícias dela?

José (rindo) – O Sr. Pinheiro gosta de andar ao fato dessas coisas.

CENA II

(Pinheiro e Helena)

Helena – Como esteve maçante o teatro hoje!

Pinheiro – Como sempre.

Helena – Não sei que graça acham esses sujeitinhos na Stoltz! Não tem nada de bonita!

Pinheiro – É prima dona!

Helena – Sabes quem deitou muito o óculo para mim? O Araújo.

Pinheiro – Ah! Está apaixonado por ti?

Helena – E por que não? Outros melhores têm-se apaixonado!

Pinheiro – Isso é verdade!

Helena – Ah! Já confessa!... Mas dizem que o Araújo agora está bem?

Pinheiro – É guarda-livros de uma casa inglesa.

Helena – Foi feliz; eu conheci-o caixeiro de armarinho.

Pinheiro – Escuta, Helena; tenho uma coisa a dizer-te.

Helena – O quê?... Temos arrufos?...

Pinheiro – Estou apaixonado pela Carolina.

Helena – Já me disseste.

Pinheiro – Julgaste que era uma brincadeira! Mas é muito sério. Estou disposto a tudo para conseguir que ela me ame.

Helena – Por isso é que já não fazes caso de mim?

Pinheiro – Ao contrário; é de ti que eu mais espero.

Helena – De mim?

Pinheiro – Não me recusarás isto!

Helena – Ah! Julgas que a minha paciência chega a este ponto?

Pinheiro – Foste tu que protegeste o Ribeiro.

Pinheiro – Sim; mas o Ribeiro não era meu amante, como o senhor!

Pinheiro – Ora, deixa-te disso! Queres fazer de ciumenta! Que lembrança!...

Helena – Não julgue os outros por si.

Pinheiro – Olha! A Carolina gosta de mim, e...

Helena – E mais cedo ou mais tarde devo ceder-lhe o meu lugar?

Pinheiro – Desde que nada perdes...

Helena – É o que te parece.

Pinheiro – Eu continuarei a ser o mesmo para ti.

Helena – Cuidas que não tenho coração?

Pinheiro – Se eu não soubesse como tu és boa e condescendente, não te pedia este favor.

Helena – Está feito! tu sempre me havias de deixar!... Antes assim!

Pinheiro - Obrigado, Helena.

Helena – Que queres que eu faça?

Pinheiro – Eu te digo. Dei esta ceia ao Ribeiro unicamente para ver se consigo falar à Carolina.

Helena – Ah! nunca lhe falaste?

(continua...)

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