Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Afonsina – Luciano? é impossível, meu pai!...
Prudêncio – Já não há impossíveis no mundo, minha senhora: e ia esta pombinha sem fel cair nas garras daquele revolucionário!
Velasco – (Á parte) – Chegamos ao fim do jogo: tenho esperanças de ganhá-lo; mas confesso que estou com receio da última cartada.
Plácido – A perfídia do ingrato foi a tempo descoberta: espero em Deus não ser deportado; e ainda bem que posso salvar minha filha!
Prudêncio – Apoiado! Nada de contemplações...
Plácido – E agora, senhores, revelarei a todos um segredo de família, que eu hoje tinha de confiar somente ao senhor Luciano. Sabem os meus amigos que eu tive um irmão querido, meu sócio nos prazeres e nas aflições da vida, e também meu sócio no comércio; a morte roubou-me esse irmão, cuja fortuna herdei, como seu único parente. Pois bem, esse irmão muito amado, ferido de súbito pelo mal que o devia levar em poucos instantes à sepultura, reconhecendo o seu estado, e vendo que se aproximava do transe derradeiro, chamou-me para junto de seu leito e disse-me: “Plácido, sabes que tenho um filho, penhor de um amor infeliz e ilegítimo; ignorem todos este segredo, e tu recolhe meu filho, educa-o, zela a fortuna que deixo e que deve pertencer-lhe; e se ele se mostrar digno de nós, se for um homem honrado , entrega-lhe a sua herança.” Concluindo estas palavras, meu irmão expirou.
Senhores, o filho de meu irmão é o senhor Luciano!
Luciano – Grande Deus!...
Afonsina – É me primo!
Prudêncio – Esta é de deixar um homem de boca aberta um dia inteiro!
Velasco – (À parte) – Complica-se o enredo...e...palavra de honra, creio que isto acaba mal.
Plácido – Senhor Luciano, creio que cumpri à risca o meu dever; zelei os seus bens,a sua fortuna, amei-o e eduquei-o como...um filho. Hoje que sou vítima de sua ingratidão, podia guardar para mim a herança que lhe pertence, pois que nenhum documento lhe assegura, e todos ignoravam o que acabo de referir: quero, porém, dar-lhe um último e inútil exemplo de probidade. (Dando papéis) Eis aqui as minhas contas: pode mandar receber a sua herança; o senhor possui quinhentos mil cruzados.
Prudêncio – Este meu cunhado é doido!
Afonsina – Como procederá agora Luciano?...
Plácido – eis as minhas contas, repito; examine-as e dê-me as suas ordens. Uma última palavra: compreenda que faço um sacrifício falando-lhe ainda, e que estou ansioso por concluir depressa. Senhor, sei que se ufana do nome de patriota; é um belo nome, sem dúvida, e que exprime uma idéia grandiosa; mas não basta ser valente para ser patriota, como ser bravo não é ser honrado. O patriota é aquele que além de estar pronto a dar a vida pela causa do seu país, sabe também honrá-lo com a prática de virtudes, e com o exemplo da honestidade; o patriota prova que o é no campo de batalha, nos comícios públicos, no serviço regular do estado e nos seio da família; em uma palavra, quem não é homem probo, não pode ser patriota. Eis o que pretendia dizer-lhe; agora separemo-nos para sempre: aqui tem as minhas contas, e dê-me as suas ordens. (Luciano fica imóvel)
Afonsina – Oh! ele não aceita!
Plácido – Receba-as, senhor, e deixei-nos em paz. (Luciano recebe os papéis).
Afonsina – E aceitou...meu Deus!
Velasco (À parte) – Quinhentos mil cruzados de menos no bolo!
Luciano – Vou retirar-me; antes, porém, de o fazer, também direi uma única...e derradeira palavra. Fui condenado sem ser ouvido: transformou-se contra mim a calúnia em verdade, e puniram-me com o insulto e com a humilhação. Curvo-me diante do único homem que o podia fazer impunemente. Senhor, fácil me fora desfazer em um instante todo esse indigno enredo em que me envolveram, mas o meu orgulho me cerra os lábios, e não descerei a desculpar-me; ao insulto seguirá em breve o arrependimento; no entanto...vou retirar-me; esta riqueza, porém, que vossa mercê me atirou ao rosto em um tal momento...essa riqueza...oh! senhor, um patriota também prova que o é, levantando-se diante do opróbrio...
Oh! vossa mercê definiu perfeitamente o patriota e o homem honrado: deume, porém, a definição e não me apresentou o exemplo; pois o exemplo quero eu dar-lho: Ei-lo aqui! (Rasga os papéis)
Afonsina – É o meu Luciano! Eu o reconheço!...
Plácido –
Senhor! Despreza a herança de seu pai?...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Amor e Pátria. [S.l.]: [s.n.], s.d.. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16668 . Acesso em: 29 dez. 2025.