Por Machado de Assis (1871)
— O senhor é um bom coração, dizia Vasconcelos apertando as mãos de Magalhães. — O sr. Oliveira deve querer-lhe muito, dizia Cecília.
— Como a um irmão.
A doença de Oliveira era grave; durante todo o tempo que durou, não se desmentiu nunca a dedicação de Magalhães.
Oliveira admirava-o. Via que o benefício que lhe fizera não caíra em má terra. Grande foi a sua alegria quando, ao começar a convalescença, Magalhães lhe pediu duzentos mil réis, com promessa de os pagar no fim do mês.
— Quanto quiseres, meu amigo. Tira-os ali da secretária.
— Acredita que isto me vexa imensamente, disse Magalhães, metendo na algibeira duas notas de cem mil-réis. Nunca te pedi dinheiro; agora, menos que nunca, devia pedir-to. Oliveira compreendeu o pensamento do amigo.
— Não sejas tolo; a nossa bolsa é comum.
— Oxalá que esse belo princípio possa ser realizado literalmente, disse Magalhães rindo. Oliveira não lhe falou nesse dia a respeito de Cecília. Foi o próprio Magalhães que encetou a respeito dela uma conversa.
— Queres ouvir uma coisa? disse ele. Apenas saíres, manda-lhe uma carta. — Por quê? Crês que...
— Creio que é a hora do golpe.
— Só para a semana poderei sair.
— Não importa, virá a tempo.
Para compreender bem a situação singular em que se achavam estes personagens todos, é mister transcrever aqui as palavras com que nessa mesma noite se despediram Magalhães e Cecília à janela da casa desta:
— Até amanhã, disse Magalhães.
— Virás cedo?
— Venho às 8 horas.
— Não faltes.
— Queres que te jure?
— Não precisa; adeus.
VII
Quando entrou a semana seguinte, já na véspera do dia em que Oliveira se dispunha a sair e visitar o comendador, recebeu uma carta de Magalhães.
Leu-a com pasmo:
Meu querido amigo, dizia Magalhães; desde ontem tenho a cabeça fora de mim. Aconteceu-me a maior desgraça que podia cair sobre nós. Com mágoa e vergonha to anuncio, meu prezadíssimo amigo, a quem tanto devo.
Prepara o teu coração para receber o golpe que já me feriu, e por muito que ele te faça sofrer, não sofrerás mais do que eu já sofri...
Saltaram duas lágrimas dos olhos de Oliveira.
Adivinhava mais ou menos o que seria. Cobrou forças e continuou a leitura: Descobri, meu querido amigo, que Cecília (como direi?), que Cecília me ama! Não imaginas como me fulminou esta notícia. Que ela não te amasse, como ambos desejávamos, era já doloroso; mas que se lembrasse de consagrar os seus afetos ao último homem que ousaria opor-se ao seu coração, é uma ironia da fatalidade. Não te contarei meu procedimento; facilmente o adivinharás. Prometi não voltar lá mais. Queria ir eu mesmo comunicar-te isto; mas não ouso contemplar a tua dor, nem te quero dar o espetáculo da minha.
Adeus, Oliveira. Se a fatalidade ainda consentir que nos vejamos (impossível!), até um dia; se não... Adeus!
Adivinha o leitor o golpe que esta carta descarregou no coração de Oliveira. Mas é nas grandes crises que o espírito do homem se mostra grande. A dor do apaixonado superada pela dor do amigo. O final da carta de Magalhães aludia vagamente a um suicídio; Oliveira deu-se pressa em ir impedir esse ato de nobre abnegação. Demais, que coração tinha ele, a quem confiasse todos os seus desesperos?
Vestiu-se apressadamente e correu à casa de Magalhães.
Disseram-lhe que não estava em casa.
Oliveira ia subindo:
— Perdão, disse o criado; eu tenho ordem de não deixar subir ninguém. — Razão demais para eu subir, respondeu Oliveira, afastando o criado. — Mas...
— Trata-se de uma grande desgraça!
E subiu apressadamente a escada.
Na sala, não havia ninguém. Oliveira entrou afoitamente no gabinete. Achou Magalhães sentado à secretária inutilizando alguns papéis.
Perto dele, havia um copo com um líquido vermelho.
— Oliveira! exclamou ele, quando o viu entrar.
— Sim, Oliveira, que vem salvar a tua vida, e dizer-te quanto és grande! — Salvar-me a vida? murmurou Magalhães; quem te disse que eu?... — Tu, na tua carta, respondeu Oliveira. Veneno! continuou ele, vendo o copo. Oh! nunca! E despejou o copo na escarradeira.
Magalhães parecia atônito.
— Eia! disse Oliveira; dá cá um abraço! Este amor infeliz foi ainda um lance de felicidade, porque conheci bem que coração de ouro é esse que te bate no peito.
Magalhães estava de pé; caíram nos braços um do outro. O abraço comoveu Oliveira, que só então deu largas à sua dor. O amigo consolou-o como pôde. — Bem, disse Oliveira, tu que foste causa indireta da minha desgraça, deves ser agora o remédio que me há de curar. Sê eternamente meu amigo.
Magalhães suspirou.
— Eternamente! disse ele.
— Sim.
— Minha vida é curta, Oliveira; eu devo morrer; se não for hoje, sê-lo-á amanhã. — Mas isso é uma loucura.
(continua...)
Caroline Alves em 21/10/2025