Por Machado de Assis (1859)
— Está visto, disse Máximo consigo, devo partir, já este me julga pelos outros.
E saiu prometendo voltar de noite.
Só quando se acharam sós é que Helena reparou na tristeza do avô. Indagou a causa; o coronel apenas respondeu-lhe por um gesto de aborrecimento. Helena calou-se.
— Nada tenho, disse o coronel daí a alguns minutos: ou antes tenho, mas é uma coisa muito particular. A propósito, tenho de comunicar-te dois pedidos de casamento.
— Logo dois! disse Helena rindo.
— É verdade. O Alves e o Batista pedem a tua mão.
— Para eles?
— Para os filhos. Disse-lhes que o melhor e mais justo era entenderem-se contigo. Eles devem vir aqui amanhã.
Na mesma noite, o coronel saiu dizendo que ia ao teatro. Era coisa rara que o coronel fosse ao teatro sem levar a neta; entretanto Helena não reparou muito nisso.
Mas o coronel não foi ao teatro. Apenas se achou na rua, disse ao cocheiro que seguisse para a casa do dr. Máximo.
O doutor estava em casa.
O motivo da entrevista era simples, mas terrível. O coronel ia exigir de Máximo que nunca mais voltasse à casa dele.
— Era minha intenção, coronel; mas nem por isso perco o direito de exigir, saber o motivo...
— Sou seu amigo, não quero dizê-lo...
— Perdão, coronel, mas a minha honra...
— Tem razão! Enfim, dir-lhe-ei. É impossível que haja entre nós e o senhor o menor contacto.
— Que fiz eu, coronel?
— Nada; mas separa-nos um traço de sangue.
— Como? perguntou Máximo aturdido.
— Foi seu pai quem assassinou meu filho, o pai de Helena.
Máximo ouvindo estas fatais palavras ficou aterrado, porquanto a memória de seu pai, que era uma das forças da sua vida, acabava de receber aquele profundo golpe.
— Como sabe disso? perguntou ele depois de alguns instantes.
— Sei. O cúmplice acaba de morrer em Barbacena, e revelou tudo. Veja esta carta: este não é o nome de seu pai?
— É.
— Estas não eram as circunstâncias da vida dele?
— Sim!
— Perdoe-me, mas é dever meu obrigá-lo a esta separação. Adeus, doutor!
— Adeus, coronel!
Estava decidido que Máximo devia partir.
CAPÍTULO V
No dia seguinte, pelas duas horas da tarde apresentou-se Alves em casa de Helena, que já o esperava, e que entreteve a conversa até a chegada de Batista. Ambos iam pedir a mesma coisa; e sentiram-se bem contrariados por se acharem juntos. Cada um resolveu intimamente adiar o pedido oficial. Mas se eles punham, Helena dispunha, e foi ela a primeira que rompeu um curto silêncio com estas palavras:
— Ambos os senhores vêm fazer-me idêntico pedido.
— Ah! disseram Alves e Batista olhando um para o outro; o senhor também?
— Também, responderam ambos.
— Também, disse Helena sorrindo.
Seguiu-se a estas palavras um momento de silêncio. Helena saboreava aquele constrangimento. Por fim, disse ela:
— O pedido é honroso para mim; mas por isso mesmo que a resposta, qualquer que seja, não pode deixar de ser desagradável para um, conversemos antes sobre o assunto, menos como solução que como explicação.
— É justo, disse Batista. Pela minha parte, devo dizer que prefiro saber o mais breve possível da resposta definitiva, porquanto mesmo que a solução seja má, ainda assim é melhor que a situação atual de meu filho. A senhora avaliará.
— Avalio, disse ela.
— Eu estou às suas ordens, disse Alves.
— Suponham que eu escolho um dos mancebos distintos que me fazem a honra de pedir a minha mão; quererá ele sujeitar-se a uma condição?
— Qual? perguntou Batista.
— Eu creio que a todas, disse Alves.
Helena continuou:
— Para evitar dúvidas futuras, e resguardar a minha ação individual, dizia meu finado marido, de quem herdei a fortuna que possuo, que, se me houvesse de casar segunda vez, celebrasse antecipadamente uma escritura em virtude da qual os meus bens ficassem inteiramente meus, sem ação possessiva nem administrativa de meu novo marido.
— Capricho de moribundo! disse Batista piscando o olho.
— Sem conseqüências, acrescentou Alves.
— Não, replicou Helena, a vontade de um morto é sagrada, e eu quero respeitar a dele. Demais, creio que pensava bem.
— Sim, não pensava mal, murmurou Batista.
Alves coçava a cabeça sem atinar com uma resposta.
— Esta explicação, continuou Helena, acho que era necessária antes de uma solução qualquer.
— Sem dúvida alguma, disse Batista. Mas a minha questão não é de dinheiro.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quinhentos contos. Theatro e Salão, Rio de Janeiro, v. 1. 1859.