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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

Mal saiu, pedi pormenorizadas informações ao Laje da Silva. Nos confins da minha aldeia natal, eu não podia adivinhar que o Rio contivesse exemplar tão curioso do gênero humano, uma desencontrada mistura de porco e de símio adiantado, ainda por cima jornalista ou coisa que o valha, exuberante de gestos inéditos e frases imprevistas. Laje da Silva, porém, só sabia que ele tinha a Aurora à sua disposição, jornal muito lido e antigo, respeitado e que, no tempo do Império, derrubou mais de um ministério. Escrevia nos jornais; era o bastante. E essa sua admiração, se era de fato esse o sentimento do padeiro, pelos homens dos jornais, levava-o a respeitá-los a todos desde o mais graduado, o redator-chefe, o polemista de talento, até ao repórter de polícia, ao modesto revisor e ao caixeiro de balcão. Todos para ele eram sagrados, seres superiores ou necessários aos seus negócios, pois viviam naquela oficina de ciclopes onde se forjavam os temerosos raios capazes de ferir deuses e mortais, e os escudos capazes também de proteger as traficâncias dos mortais e dos deuses. Laje não lhe conhecia as obras, nem mesmo os artigos e ficou satisfeito que um outro conhecido seu viesse sentar-se sem cerimônia alguma à nossa mesa, obrigando-me a não lhe fazer mais perguntas sobre o Pithecanthropus literato. Era o Oliveira — não me conhece? O Oliveira, do O Globo!... tão conhecido!... Oh!

O padeiro ofereceu-lhe alguma coisa e perguntou amavelmente o que havia de novo.

— Uma inundação no Norte.

— No forte São Joaquim, no Purus.

— Perdão! fiz eu muito colegialmente. O forte São Joaquim não fica no Purus...

O Oliveira olhou-me com alguma raiva e eu tive que comprimir a alegria colegial do quinau. Mas a sua raiva foi breve; o repórter Oliveira procurou uma saída conveniente para a sua ignorância numa critica larga e patriótica:

— Esta nossa geografia anda tão baralhada... O Governo não cuida nessas coisas. É só política e “comidelas”... Tudo come... Uma vergonha! Do que o pais precisa não cuidam... O senhor com certeza não conhece o rio das Capivaras?

— Não, senhor, fiz satisfeito por mostrar a meu turno a minha ignorância.

— Pois é um rio importante e nenhuma geografia dá! Eu o conheço porque nasci perto, senão... Nós não temos governo...

De manhã, pus-me a recapitular todos esses episódios; e sobre todos pairava a figura inflada, mescla de suíno e de símio, do célebre jornalista Raul Gusmão. O próprio Oliveira, tão parvo e tão besta. tinha alguma coisa dele, do seu fingimento de superioridade, dos seus gestos fabricados, da sua procura de frases de efeito, de seu galope para o espanto e para a surpresa. Era já o genial, com quem viria travar conhecimento mais tarde, que me assombrava com o seu maquinismo de pose e me colhia nos alçapões de apanhar os simples. E senti também que o espantoso Gusmão e o bobo Oliveira me tinham desviado da observação meticulosa a que vinha submetendo o padeiro de Itaporanga. Achava extraordinário que um varejista de um vilarejo longínquo cultivasse e mantivesse amizades tão fora do seu circulo; não se explicava bem aquele seu norteio para os jornalistas, a especial admiração com que os cercava, o carinho com que tratava todos.

No teatro e na rua, cumprimentou mais de uma dezena deles e apontou-me, sem lhes falar, uma dúzia de outros. É de tal jornal diário, dizia; é de tal semanário; “faz guerra, faz marinha”... Conhecia minuciosamente toda a vida jornalística. Informava-me sobre os nomes dos redatores, dos proprietários, dos colaboradores; sabia a tiragem de cada um dos grandes jornais, como a de cada semanário de caricaturas... Havia nisso uma mania pueril ou o que era? Não se manifestava homem de leituras, político ou dado às letras; não lhe senti a mais elementar preocupação intelectual; todo ele me pareceu convergindo para os negócios, para as coisas de dinheiro, especulações... Por isso, a sua jovialidade e sociabilidade não impediram que, aqui e ali, repontassem em mim alguns propósitos sobre a sua honestidade.

Houve um fato que tornou um pouco mais consistentes as fluídicas suspeitas que alimentava.

Acabando de cear, ao pagar a conta, o padeiro examinou com o cuidado especial de entendido o papel, a estampa e a numeração das notas do troco. Notando que eu reparava com insistência para o seu exame pericial, com a mais tranqüila das vozes e cheio de uma linda ingenuidade, pediu-me:

— Faça o favor, doutor: veja-me de que estampa é esta... Não posso ler direito...

E passava-me a cédula velha, mas ainda em bom estado, em que li: estampa 9.a — perfeitamente legível.

— Obrigado. É preciso muito cuidado, meu caro doutor. A Casa da Moeda tem muitas filiais por aí...

Com o seu gesto habitual, estendeu a perna, arrumou as notas no maço e guardou-o no fundo da algibeira.

Daí em diante, não sei se com justeza, mas certamente com muita segurança intima, tive por afetadas a sua simplicidade e bonomia, e julguei que escondiam algo de grave que se desenrolava na sua vida e ainda não tivera termo.

(continua...)

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