Por Lima Barreto (1915)
Apanharam afinal o carreiro onde ficava a casa da Maria Rita. O tempo estivera seco e por isso se podia andar por ele. Para além do caminho, estendia-se a vasta região de mangues, uma zona imensa, triste e feia, que vai até ao fundo da baía e, no horizonte, morre ao sopé das montanhas azuis de Petrópolis. Chegaram à casa da velha. Era baixa, caiada e coberta com as pesadas telhas portuguesas. Ficava um pouco afastada da estrada. À direita havia um monturo: restos de cozinha, trapos, conchas de mariscos, pedaços de louça caseira - um sambaqui a fazer-se para gáudio de arqueólogo de futuro remoto; à esquerda, crescia um mamoeiro e bem junto à cerca, no mesmo lado, havia um pé de arruda. Bateram. Uma pretinha moça apareceu na janela aberta.
- Que desejam?
Disseram o que queriam e aproximaram-se. A moça gritou para o interior da casa:
- Vovó estão aí dous “moços” que querem falar com a senhora. Entrem, façam o favor - disse ela depois, dirigindo-se ao general e ao seu companheiro.
A sala era pequena e de telha-vã. Pelas paredes, velhos cromos de folhinhas, registros de santos, recortes de ilustrações de jornais baralhavam-se e subiam por elas acima até dous terços da altura. Ao lado de uma Nossa Senhora da Penha, havia um retrato de Vítor Emanuel com enormes bigodes em desordem; um cromo sentimental de folhinha - uma cabeça de mulher em posição de sonho - parecia olhar um São João Batista ao lado. No alto da porta que levava ao interior da casa, uma lamparina, numa cantoneira, enchia de fuligem a Conceição de louça.
Não tardou vir a velha. Entrou em camisa de bicos de rendas, mostrando o peito descarnado, enfeitado com um colar de miçangas de duas voltas. Capengava de um pé e parecia querer ajudar a marcha, com a mão esquerda pousada na perna correspondente.
- Boas-tardes, tia Maria Rita, disse o general.
Ela respondeu, mas não deu mostras de ter reconhecido quem lhe falava. O general atalhou:
- Não me conhece mais? Sou o General, o Coronel Albernaz.
- Ah! É sô coroné!... Há quanto tempo! Como está nhã Maricota?
- Vai bem. Minha velha, nós queríamos que você nos ensinasse umas cantigas.
- Quem sou eu, ioiô!
- Ora! Vamos, tia Maria Rita... você não perde nada... você não sabe o “Bumba-meu-Boi”? - Quá, ioiô, já mi esqueceu.
- E o “Boi Espácio”?
- Cousa véia, do tempo do cativeiro - pra que sô coroné qué sabê disso?
Ela falava arrastando as sílabas, com um doce sorriso e um olhar vago.
- É para uma festa... Qual é a que você sabe?
A neta que até ali ouvia calada a conversa animou-se a dizer alguma cousa, deixando perceber rapidamente a fiada reluzente de seus dentes imaculados:
- Vovó já não se lembra.
O general, que a velha chamava coronel, por tê-lo conhecido nesse posto, não atendeu a observação da moça e insistiu:
- Qual esquecida, o quê! Deve saber ainda alguma cousa, não é, titia? - Só sei o “Bicho Tutu”, disse a velha.
- Cante lá!
- Ioiô sabe! Não sabe? Quá, sabe!
- Não sei, cante. Se eu soubesse não vinha aqui. Pergunte aqui ao meu amigo, o Major Policarpo, se sei.
Quaresma fez com a cabeça sinal afirmativo e a preta velha, talvez com grandes saudades do tempo em que era escrava e ama de alguma grande casa, farta e rica, ergueu a cabeça, como para melhor recordar-se, e entoou:
É vem tutu
Por detrás do murundu Pra cumê sinhozinho
Cum bucado de angu.
- Ora! Fez o general com enfado, isso é cousa antiga de embalar crianças. Você não sabe outra?
- Não, sinhô. Já mi esqueceu.
Os dous saíram tristes. Quaresma vinha desanimado. Como é que o povo não guardava as tradições de trinta anos passados? Com que rapidez morriam assim na sua lembrança os seus folgares e as suas canções? Era bem um sinal de fraqueza, uma demonstração de inferioridade diante daqueles povos tenazes que os guardam durante séculos! Tornava-se preciso reagir, desenvolver o culto das tradições, mantê-las sempre vivazes nas memórias e nos costumes...
Albernaz vinha contrariado. Contava arranjar um número bom para a festa que ia dar, e escapavalhe. Era quase a esperança de casamento de uma das quatro filhas que se ia, das quatro, porque uma delas já estava garantida, graças a Deus!
O crepúsculo chegava e eles entraram em casa mergulhados na melancolia da hora.
A decepção, porém, demorou dias. Cavalcanti, o noivo de Ismênia, informou que nas imediações morava um literato, teimoso cultivador dos contos e canções populares do Brasil. Foram a ele. Era um velho poeta que teve sua fama aí pelos setenta e tantos, homem doce e ingênuo que se deixara esquecer em vida, como poeta, e agora se entretinha em publicar coleções, que ninguém lia, de contos, canções, adágios e ditados populares.
Foi grande a sua alegria quando soube o objeto da visita daqueles senhores. Quaresma estava animado e falou com calor; e Albernaz também, porque via na sua festa, com um número de folklore, meio de chamar a atenção sobre sua casa, atrair gente e... casar as filhas.
(continua...)
BARRETO, Lima. O triste fim de Policarpo Quaresma. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2028 . Acesso em: 8 maio 2026.