Por Machado de Assis (1862)
Protestas contra isto? É natural. Não serias o que és se aceitasses à primeira vista a minha opinião. É por isso que te peço reflexão e calma. Meu caro, o marinheiro conhece as tempestades e os navios; eu conheço os amores e as mulheres; mas avalio no sentido inverso do homem do mar; as escumas veleiras são preferidas pelo homem do mar, eu voto contra as mulheres veleiras.
VALENTIM
Chamas a isto uma razão?
DOUTOR
Chamo a isto uma opinião. Não é a tua! Há de sê-lo com o tempo. Não me faltará ocasião de chamar-te ao bom caminho. A tempo o ferro é mezinha, disse Sá de Miranda. Empregarei o ferro.
VALENTIM
O ferro?
DOUTOR
O ferro. Só as grandes coragens é que se salvam. Devi a isso salvar-me das unhas deste gavião disfarçado de quem queres fazer tua mulher.
VALENTIM
O que estás dizendo?
DOUTOR
Cuidei que sabias. Também eu já trepei pela escada de seda para cantar a cantiga do Romeu à janela de Julieta.
VALENTIM
Ah!
DOUTOR
Mas não passei da janela. Fiquei ao relento, do que me resultou uma constipação.
VALENTIM
É natural. Pois como havia ela de amar a um homem que quer levar tudo pela razão fria
dos seus libelos e embargos de terceiro?
DOUTOR
Foi isso que me salvou; os amores como os desta mulher precisam um tanto ou quanto de chicana. Passo pelo advogado mais chicaneiro do foro; imagina se a tua viúva podia haver-se comigo! Veio o meu dever com embargos de terceiro e eu ganhei a demanda. Se, em vez de comer tranqüilamente a fortuna de teu pai, tivesses cursado a academia de S. Paulo ou Olinda, estavas, como eu, armado de broquel e cota de malhas.
VALENTIM
É o que te parece. Podem acaso as ordenações e o código penal contra os impulsos do coração? É querer reduzir a obra de Deus à condição da obra dos homens. Mas bem vejo que és o advogado mais chicaneiro do foro.
DOUTOR
E portanto, o melhor.
VALENTIM
Não, o pior, porque não me convenceste.
DOUTOR
Ainda não?
VALENTIM
Nem me convencerás nunca.
DOUTOR
Pois é pena!
VALENTIM
Vou tentar os meios que tenho em vista; se nada alcançar talvez me resigne à sorte.
DOUTOR
Não tentes nada. Anda jantar comigo e vamos à noite ao teatro.
VALENTIM
Com ela? Vou.
DOUTOR
Nem me lembrava que a tinha convidado.
VALENTIM
Espero que hei de vencer.
DOUTOR
Com que contas? Com a tua estrela? Boa fiança!
VALENTIM
Conto comigo.
DOUTOR
Ah! Melhor ainda!
Cena VII
DOUTOR, VALENTIM, INOCÊNCIO
INOCÊNCIO
O corredor está deserto.
DOUTOR
Os criados servem à mesa. D. Carlota está almoçando. Está melhor?
INOCÊNCIO
Um tanto.
VALENTIM
Esteve doente, Sr. Inocêncio?
INOCÊNCIO
Sim, tive uma ligeira vertigem. Passou. Efeitos do amor... quero dizer... do calor.
VALENTIM
Ah!
INOCÊNCIO
Pois olhe, já sofri calor de estalar passarinho. Não sei como isto foi. Enfim, são coisas que dependem das circunstâncias.
VALENTIM
Houve circunstâncias?
INOCÊNCIO
Houve... (sorrindo) Mas não as digo... não!
VALENTIM
É segredo?
INOCÊNCIO
Se é!
VALENTIM
Sou discreto como uma sepultura; fale!
INOCÊNCIO
Oh! não! É um segredo meu e de mais ninguém... ou a bem dizer, meu e de outra pessoa... ou não, meu só!
DOUTOR
Respeitamos os segredos, seus ou de outros!
INOCÊNCIO
V. S. é um portento! Nunca hei de esquecer que me comparou ao sol! A certos respeitos andou avisado: eu sou uma espécie de sol, com uma diferença, é que não nasço para todos, nasço para todas!
DOUTOR
Oh! Oh!
VALENTIM
Mas V. S. está mais na idade de morrer que de nascer.
INOCÊNCIO
Apre lá! Com trinta e oito anos, a idade viril! V. S. é que é uma criança!
VALENTIM
Enganaram-me então. Ouvi dizer que V. S. fora dos últimos a beijar a mão de Dom João VI, quando daqui se foi, e que nesse tempo era já taludo...
INOCÊNCIO
Há quem se divirta em caluniar a minha idade. Que gente invejosa! Onde vai, Doutor?
DOUTOR
Vou sair.
VALENTIM
Sem falar a D. Carlota?
DOUTOR
Já me havia despedido quando chegaste. Hei de voltar. Até logo. Adeus, Sr. Inocêncio!
INOCÊNCIO
Felizes tardes, Sr. Doutor!
Cena VIII
VALENTIM, INOCÊNCIO
INOCÊNCIO
É uma pérola este doutor! Delicado e bem falante! Quando abre a boca parece um deputado na assembléia ou um cômico na casa da ópera!
VALENTIM
Com trinta e oito anos e ainda fala na casa da ópera!
INOCÊNCIO
(continua...)
ASSIS, Machado de. O caminho da porta. Rio de Janeiro, 1862.