Por Aluísio Azevedo (1890)
- A história - o sagrado tribunal da inquisição, onde comparecem as sombras dos reis - há de me julgar. Pouco me importa a sentença. Eu quero ser julgado. Ela dirá que eu fui despótico e brutal. Mas a mim nunca deram educação. Deixaram-me crescer como esses animais bravios da floresta que só conhecem a lei de seus apetites e para quem a luta é a própria vida. Não posso ser melhor do que me fizeram. Tenho, preciso ter, essa independência selvagem do leão que a nada se curva e triunfa sempre. E sinto-me bem, assim como sou. Hei de cumprir o meu destino todo inteiro de homem que nasceu para as altas empresas legendárias!
E mais baixo, confidencialmente e quase triste:
- Ouve-me, Satanás! Eu sou um infeliz.
Fez-se então um longo silêncio, merencório e fúnebre como a antítese dos grandes que se confessam pequeninos.
- E tu? falou o príncipe galhofeiramente. - Lembra-te que um de nós duos tem de morrer pelamão do outro, conforme disse a feiticeira.
- Elas mentem às vezes. Em todo caso mais vale morrer de mão de amigo.
- E tu és de verdade meu amigo?
- Que pergunta!
- Sim. Faço-te confidente de todos os meus planos. Melhor do que ninguém tu sabes o que eupenso sobre as cortes. Tu sabes que não posso aturar essa canalha de pairadores letrados, que quer deitar leis ao meu orgulho e a quem meu pai se entrega com toda a moleza do seu caráter. Mas...
- Eu o traio, porventura?
- Não. Mas tu me aborreces, porque te fazes necessário demais. A tua dedicação enfarta-mecomo a festa insistente dos rafeiros.
- Ora. O príncipe bem sabe que Zabanila é minha inimiga. Não deve, pois, ligar importância noque ela diz, nem permitir que esta cigana de mau olhar queira torná-lo o instrumento das suas vinganças pessoais.
- Sim. Falemos de Zabanila. Todo o ódio que dedicas à pobre rapariga consiste em não seres tuo descobridor daquela pérola.
- Pérola rachada!
- Que importa! Eu insubordino-me e quero emancipar-me da tutela que tens exercido sobretodos os meus amores.
- Revolta de criança que prefere o pão preto das estrebarias ao repasto das mesas do castelo!
- Não, Satanás! É o meu orgulho. Eu quero conquistar uma mulher por mim mesmo. E posso garantir-te que vou em bom caminho.
- Faz bem. Eu velarei, entretanto, sobre os seus dias, como esse cão rafeiro de que falou hápouco, e que tanto o incomoda com as suas carícias.
- Não. Ordeno-te que me deixes só nesta aventura. E, olha, ela não será muito prolongada.Daqui a três dias partiremos para Santos. São, pois, três dias de liberdade que te peço apenas.
- O príncipe ordena.
- Pois bem, então separemo-nos.
E os dous se despediram um do outro, mergulhando nas trevas os seus nobres vultos fidalgos.
V
LE ROI S'AMUSE
D. Pedro tinha razão. Para o seu caráter independente, era afinal uma verdadeira humilhação aquela constante necessidade de recorrer aos serviços do Satanás. O que ele mais desejava, havia muito, era um amor que pudesse satisfazer o seu orgulho de homem. Aquilo rebaixava-o diante de si mesmo; parecia-lhe, ao receber um beijo, que não era o homem, forte e apaixonado, que o recebia, vencedor pela força e pela paixão, mas o príncipe, vencedor pelo nome e pelo prestígio da posição.
E esse amor, que ele sonhava no íntimo, essa esperada paixão desinteressada e nobre, apareceu-lhe (nem o podia imaginar o Satanás!) no mesmo dia em que Branca deixara que o seu coração se dependurasse cativo dos belos bigodes negros de Paulo de Andrade.
Quando a procissão passara, um ano antes, pelo lugar em que estavam Branca e d. Emerenciana, naquela tarde radiante em que a moça pela primeira vez sentira o coração bater sob o domínio de um olhar de homem, o príncipe, que empunhava uma das varas do pálio, viu de relance a filha do seu alter ego.
Dessa tarde em diante, houve para ele a ansiedade indizível de rever e de possuir aquela criatura loura, cujos olhos refletiam a mais pura inocência e toda a ingenuidade de uma criança... Ah! o príncipe já andava farto de mastigar frutos maduros: o que ele agora queria, era o sabor excitante dos pêssegos verdes, ainda não cobertos de penugem.
Viu-a de novo na festa de S. Sebastião, viu-a nos Te-Deuns solenes dos dias de gala, viu-a a passeio, viu-a no largo do Paço, onde naquele tempo as famílias iam tomar fresco, pelas tardes abrasadas do verão. E privado até então de uma ocasião própria para lhe falar, o príncipe ardia em impaciência e em febre: entre duas conquistas fáceis das que lhe arranjava o Satanás, aparecia-lhe sempre a loura imagem de Branca, dominando tudo, apagando tudo com o seu brilho e a sua pureza de estrela inacessível.
Na ocasião em que, por basófia, d. Pedro atirou ao Satanás aquela frase orgulhosa em que vinha explodir, despeitada, a sua altivez, estavam as cousas nesse pé...
O príncipe, sem que uma só palavra pudesse trair as suas ocultas intenções, não falou mais, ao Satanás na aventura em que se tinha empenhado.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O esqueleto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7409 . Acesso em: 18 mar. 2026.