Por Aluísio Azevedo (1895)
Acudiu o inspetor, fez cessar a briga e, tomando o Coruja pelo braço, levou-o à presença do Dr. Mosquito.
Teobaldo acompanhou-o.
Exposto o ocorrido, foi o Coruja interrogado e confessou que era tudo verdade: "Batera em alguns de seus companheiros".
- Pois então recolham-no ao quarto do castigo, disse o diretor. Passará aí o domingo, fazendo considerações sobre o inconveniente das bravatas!
- Perdão! observou Teobaldo; quem tem de sofrer esse castigo sou eu! Fui o causador único da desordem. Este menino não tem a menor culpa!
E apontou para o Coruja.
- Ó senhores! Pois se eu o vi atracando-se aos outros, como um demônio! exclamou o inspetor.
- E ele próprio o confessa... acrescentou o diretor. Vamos! Cumpra-se a ordem que dei!
- Nesse caso eu também serei preso, respondeu Teobaldo.
E tão resolutamente acompanhou o colega, que ninguém o deteve.
Foram recolhidos à mesma prisão, e desta vez, graças à influência de Teobaldo, o outro, além de não ter de gramar o escuro, recebeu licença para levar consigo alguns livros e a flauta que lhe emprestara o Caixa-dóculos.
Logo que os dois meninos se acharam a sós, Teobaldo foi ter com o Coruja e disse, apertando-lhe a mão:
- Obrigado.
André fez um gesto com a cabeça, equivalente a estas palavras: "Não tem que agradecer, porque o mesmo faria por qualquer criatura".
Se o senhor fazia parte do grupo que insultei, volveu Teobaldo, peço-lhe desculpa.
- Não fazia, respondeu o outro, dispondo-se a entregar-se de corpo e alma à sua ingrata flauta.
Felizmente para o colega, foram interrompidos por uma pancada na porta.
Teobaldo correu a receber quem batia, e soltou logo uma exclamação de prazer:
- Oh! Você, Caetano! Como estão todos lá e casa? Mamãe está melhor? E papai, papai que faz que não vem me ver, como prometeu?
Caetano, em vez de responder, pousou no chão uma cesta que trazia, e abriu os braços para o menino, deixa do correr pelo sorriso de seu rosto duas lágrimas de ternura que se lhe escapavam dos olhos.
Era um homem de meia idade, alto, magro, de cabelos grisalhos, à escovinha, cara toda raspada; e tão simpático, tão bom de fisionomia, que a gente gostava dele à primeira vista.
Trajava uma libré cor de rapé, com botões de latão e alamares de veludo preto.
Caetano entrara muito criança para o serviço do avô de Teobaldo, pouco antes do nascimento do pai deste, nunca mais abandonou essa família, da qual mais adiante teremos de falar, e por onde se poderão avaliar os laços de velha amizade que ligavam aquele respeitoso criado ao neto de seu primeiro amo.
Por enquanto diremos apenas que o bom Caetano. viu crescer ao seu lado o pai de Teobaldo; que o acompanhou tanto nas suas primeiras correrias de rapaz, como mais tarde nas suas aventuras políticas durante as revoluções de Minas; e que a intimidade entre esses dois companheiros por tal forma os identificou, que afinal criado era já consultado e ouvido como um verdadeiro membro e amigo da família a que se dedicara. - Mas, Caetano, que diabo veio você fazer aqui? perguntou Teobaldo. Há novidade lá por casa? Fale; Mamãe piorou?
- Não; graças a Deus não há novidade. A senhora baronesa não piorou, e parece até que vai melhor; o que ela tem é muitas saudades de vossemecê.
- E papai, está bom?
- Nhô-Miló (era assim que chamava o amo) está bom, graças a Deus. Foi ele quem me mandou cá. Vim trazer um dinheiro ao doutor.
- Ah! Ao diretor? Quanto foi?
- Trezentos mil réis.
- Seriam emprestados, sabes?
- Creio que sim, porque trouxe uma letra que tem de voltar assinada...
- E isso que trazes aí no cesto é para mim?
- É, sim senhor. É a senhora baronesa quem manda.
Teobaldo apressou-se a despejar a cesta. Vinham doces, queijo, nozes, figos secos, passas, amêndoas, frutas cristalizadas e uma garrafa de vinho Madeira.
- Isto é que é pouco; devia ter vindo mais... considerou ele, pousando a garrafa no chão.- Pois fique sabendo que, se não fosse Nhô-Mjló, nem essa teria vindo... A senhora baronesa chegou a zangar-se com ele.
E, mudando de tom:
- Mas é verdade, vossemecê está preso?
- Qual! Estou aqui porque assim o quis.
Em quatro palavras Teobaldo contou o motivo da sua prisão.
- Ah! disse o criado, vossemecê é seu pai, sem tirar nem pôr!
- Sim, mas não contes nada em casa...
- Não há novidade, não senhor!
E, depois de conversarem ainda mais alguma coisa, Caetano abraçou de novo o rapaz, despediu-se do outro e retirou-se, pretextando que não convinha demorar-se para não chegar muito tarde à fazenda.
Outra vez fechada a prisão, Teobaldo, restituído ao seu bom humor com o presente da família, voltou-se, já risonho, para o companheiro e disse, batendo-lhe no ombro:
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.