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#Comédias#Literatura Brasileira

O protocolo

Por Machado de Assis (1862)

Não me tome por um mau sonhador de perfídias; perguntei, porque estou seguro de que não são muito santas as intenções que trazem à minha casa Venâncio Alves.

ELISA

Pois eu nem suspeito...

PINHEIRO

Vê o céu nublado e as águas turvas: pensa que é azada ocasião para pescar.

ELISA

Está feito, é de pescador atilado!

PINHEIRO

Pode ser um mérito a seus olhos, minha senhora; aos meus é um vício de que o pretendo curar, arrancando-lhe as orelhas.

ELISA

Jesus! Está com intenções trágicas!

PINHEIRO

Zombe ou não, há de ser assim.

ELISA

Mutilado ele, que pretende fazer da mesquinha Desdêmona?

PINHEIRO

Conduzi-la de novo ao lar paterno.

ELISA

Mas afinal de contas, meu marido, obriga-me a falar também seriamente.

PINHEIRO

Que tem a dizer?

ELISA

Fui tirada há meses da casa de meu pai para ser sua mulher; agora, por um pretexto frívolo, leva-me de novo ao lar paterno. Parece-lhe que eu seja uma casaca que se pode tirar por estar fora da moda?

PINHEIRO

Não estou para rir, mas digo-lhe que antes fosse uma casaca.

ELISA

Muito obrigada!

PINHEIRO

Qual foi a casaca que já me deu cuidados? Porventura quando saio com a minha casaca não vou descansado a respeito dela? Não sei eu perfeitamente que ela não olha complacente para as costas alheias, e fica descansada nas minhas?

ELISA

Pois tome-me por uma casaca. Vê em mim alguns salpicos?

PINHEIRO

Não, não vejo. Mas vejo a rua cheia de lama e um carro que vai passando; e nestes casos, como não gosto de andar mal asseado, entro em um corredor, com a minha casaca, à espera de que a rua fique desimpedida.

ELISA

Bem. Vejo que quer a nossa separação temporária... até que passe o carro. Durante esse tempo como pretende andar? Em mangas de camisa?

PINHEIRO

Durante esse tempo não andarei, ficarei em casa.

ELISA

Oh! Suspeita por suspeita! Eu não creio nessa reclusão voluntária.

PINHEIRO

Não crê? E por quê?

ELISA

Não creio, por mil razões.

PINHEIRO

Dê-me uma, e fique com as novecentas e noventa e nove.

ELISA

A primeira é a simples dificuldade de conter-se entre as quatro paredes desta casa.

PINHEIRO

Verá que posso.

ELISA

A segunda é que não deixará de aproveitar o isolamento para ir ao alfaiate provar outras casacas.

PINHEIRO

Oh!

ELISA

Para ir ao alfaiate é preciso sair; quero crer que não fará vir o alfaiate à casa.

PINHEIRO

Conjecturas suas. Reflita, que não está dizendo coisas assisadas. Conhece o amor que lhe tive e lhe tenho, e sabe de que sou capaz. Mas, voltemos ao ponto de partida. Este

livro pode nada significar e significar muito. (folheia) Que responde?

ELISA

Nada.

PINHEIRO

Oh! que é isto? É a letra dele.

ELISA

Não tinha visto.

PINHEIRO

É talvez uma confidência. Posso ler?

ELISA

Por que não?

PINHEIRO

(lendo)

"Se me privas dos teus aromas, ó rosa que foste abrir sobre um rochedo, não podes fazer com que eu te não ame, contemple e abençoe!" Como acha isto?

ELISA

Não sei.

PINHEIRO

Não tinha lido?

ELISA

(sentando-se)

Não.

PINHEIRO

Sabe quem é esta rosa?

ELISA

Cuida que serei eu?

PINHEIRO

Parece. O rochedo sou eu. Onde vai ele desencavar estas figuras.

ELISA

Foi talvez escrito sem intenção...

PINHEIRO

Ah! Foi... Ora diga, é bonito isso? Escreveria ele se não houvesse esperanças?

ELISA

Basta. Tenho ouvido. Não quero continuar a ser alvo de suspeitas. Esta frase é intencional; ele viu as águas turvas... De quem a culpa? Dele ou sua? Se as não houvesse agitado, elas estariam plácidas e transparentes como dantes.

PINHEIRO

A culpa é minha?

ELISA

Dirá que não é. Paciência. Juro-lhe que não sou cúmplice nas intenções deste presente.

PINHEIRO

Jura?

ELISA

Juro.

PINHEIRO

Acredito. Dente por dente, Elisa, como na pena de Talião. Aqui tens a minha mão em prova de que esqueço tudo.

ELISA

Também eu tenho a esquecer e esqueço.

Cena XIII

ELISA, PINHEIRO, LULU

LULU

Bravo! voltou o bom tempo?

PINHEIRO

Voltou.

LULU

Graças a Deus! De que lado soprou o vento?

PINHEIRO

De ambos os lados.

LULU

Ora bem!

ELISA

Pára um carro.

LULU

(vai à janela)

Vou ver.

PINHEIRO

Há de ser ele.

LULU

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