Por Aluísio Azevedo (1897)
Não devia, por conseguinte, preocuparse em extremo com a fraudulência do caso, nem devia sentir remorsos: "Cada um puxa a brasa para sua sardinha!..." Gabriel que se queixasse da sorte, que havia feito de Melo um homem pobre... Além disso, o amor, o grande amor! tinha costas largas e era um pretexto magnífico para todas aquelas patifarias... Que diabo não se poderia explicar na vida pela "Paixão amorosa?..." Quantos exemplos não havia por aí de bons rapazes, que se deitavam a perder por causa de mulheres?... Todos perdoariam, desde que a sujeita fosse deveras bonita!... E muito mais que ele não precisava absolutamente de voltar ao Brasil... Para fazer o quê?... Paris! Paris o atraía como uma pátria desconhecida! em Paris, o Melo encontraria decerto mil modos de exercer a sua inteligência e o seu espírito!... Quanto à Ambrosina, essa nunca seria um estorvo, porque ele não era nenhuma criança e sabia lidar com toda a sorte de gado mulheril, fosse este o mais cornígero e bravio.
— Mas é verdade! exclamou, despertando das suas cogitações. Não chegamos hoje, ó cocheiro? Há boa hora que andamos!
O cocheiro não se deu por achado, e Melo reparou que nesse instante acabava de passar pelo matadouro e entrava na rua de Mariz e Barros.
— Para onde diabo vamos nós?! berrou ele a puxar o paletó de Jorge. Olha que vamos errados, animal!
— Não lhe dê isso cuidado! retorquiu o cocheiro. E fustigou os cavalos com terrível gana.
— Pára! Pára! Pára! gritava o rapaz, vendo que o conduziam por uma picada. Se não paras, chamo a polícia!
— Chame, se for capaz! respondeu Jorge, fazendo afinal parar o carro defronte de uma casinha de porta e janela.
E depois de apearse, acrescentou, perfilandose defronte do Melo:
— O senhor vai entrar imediatamente nesta casa, ou será denunciado à polícia como ladrão!
— Mas isto é uma emboscada! exclamou o tolhido.
— Justamente, confirmou o cocheiro com ar calmo. Eu sou o Jorge, que o senhor bem conhece, e estou cá por ordem do Dr. Gabriel e de D. Ambrosina, aos quais tencionava o senhor engazupar! Faça barulho, e veremos quem ficará do pior partido! Aí tem essa carta; leia! É de D.Ambrosina...
E o cocheiro entregou ao Melo uma carta.
— Canalhas! disse este, abrindoa. Entendam lá semelhante escória! São todos da mesma força!
A carta dizia o seguinte:
"Melo,
"Sei de tudo o que sucedeu, não tenhas, porém, receio algum; tudo isso foi para salvarte.
Descobriram os nossos projetos, mas crê que os não sufocaram. Por ora, é necessário que te submetas ao que quer essa gente; julgam que eu parto hoje com Gabriel e te prenderão até à meianoite. Gabriel não me acompanhará, todos suporão que eu fugi sozinha para a Europa; todos, à exceção de ti, que me irás procurar misteriosamente na avenida de Magalhães, chalé n. 5. Não te revoltes quando te prenderem e lança a culpa para mim.
"Amanhã estarás livre, e depois de amanhã estaremos de partida. Se alguém te falar a meu respeito, finge que me supões longe, e, logo que te aches desembaraçado, corre a procurarme onde já te indiquei.
"Toda cautela é pouca! Pelo sim, pelo não, rasga a esta carta...
"Tua sempre — Ambrosina."
Miserável! disse afetadamente o Melo, depois da leitura; Enganoume! fugiu!
E apeandose por sua vez, acrescentou para Jorge:
— Estou à sua disposição...
O cocheiro fez soar a aldrava da porta, e entregou o carro a um negro que veio abrir; em seguida intimou com um gesto Melo Rosa a penetrar na casa, e entrou após dele, dando duas voltas à fechadura e recolhendo a chave.
Entretanto, vejamos o que por esse tempo fazia Ambrosina.
A ardilosa rapariga, logo que Gabriel saiu de casa e enquanto lá fora era o velhaco Melo Rosa rastrejado pelo pai de Laura, ficava com esta em completa independência na casinha de Laranjeiras.
— Não podemos agora perder um instante! disse ela à infeliz cúmplice, quando se acharam a sós.
— Mas, o que me cumpre fazer? perguntou Laura.
— Mudares de roupa e te dispores a partir imediatamente comigo...
— Partimos então hoje para a Europa?
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.