Por José de Alencar (1872)
A entrada de Guida na casa da avó produzia o mesmo efeito que um sol de abril rompendo a bruma depois de uma manhã de chuva, ou para empregar imagem menos rústica e poética, o de uma música de batalhão passando em rua escura e retirada.
O rancho das raparigas e moleques corria ao portão. D. Leonarda, a coxear, arrastava-se com o arrimo de uma bengala até a porta, onde acabava de aparecer. Não se pinta a expressão de júbilo que afogava o semblante da velhinha, com as alvíssaras da chegada de Guida.
Para a velha, aquela criança era todo o amor, como toda a alegria; ou antes, a criança era ela, que se deixava acalentar pelas carícias e meiguices da neta; e bebia-lhe nos lábios mimosos o doce riso que ainda iluminava-lhe as faces pálidas, e o prazer que lhe orvalhava as tristezas e achaques de velhice.
Subiu Guida ligeiramente os degraus da escada de pedra e apertou nos braços a avó, beijando-lhe os cabelos brancos e amimando-a com a graça que espargia-se em seu menor gesto, mas com uma ternura, que mui rara transpirava, como perfume de flor cerrada, a qual só rescende na soledade.
Entretando Mrs. Trowshy, ao descer do carro, como de costume tapou os ouvidos com as mãos para tornar-se impenetrável à algazarra da molecada, e soltando um esplêndido brrrrrr da genuína escola inglesa, foi acabá-lo numa cadeira de balanço da saleta, onde arreou-se como uma bala de algodão no bojo dum saveiro.
- Há que tempo, ingrata! disse a velha.
- Oh! avozinha! Não tinha com quem vir! Mrs. Trowshy andava com os seus faniquitos.
Depois de ter acarinhado a seu gosto a avozinha, Guida levou-a na sua cadeira de roldanas para o vão de janela que abria sobre o jardim, e aí de joelhos sobre a ponta do banquinho, o busto reclinado ao braço da poltrona, começou a falar baixinho ao ouvido da velha com extrema vivacidade. Dir-se-ia que receava encontrar-se com suas próprias palavras, pois as despedia mui depressa, e às escondidas.
Algumas vezes parava para observar a fisionomia de D. Leonarda, onde através do embevecimento que lhe causava a voz querida, espontava uma leve surpresa.
- Como há de ser? perguntou a velha uma vez.
- Escute, respondeu Guida.
E tomando entre as mãos a cabeça da velha com um gesto gracioso, conchegou-a a seus lábios, no intento de tornar ainda mais íntima e reservada essa confidência, que se não roseava-lhe a face nívea imaculada, alvoroçava-lhe os espíritos, a arder nos olhos e a arfar no seio.
- Pois sim! disse a velha dando-lhe um beijo. Arranja tudo.
Guida chamou um pajem:
- Vá à casa do Sr. Benício, sabe?
- É o procurador de sinhá velha?
- Esse mesmo. Dize-lhe que venha falar com a avozinha amanhã à noite sem falta.
- Sim, nhanhã Guida.
- Então vens amanhã? Perguntou a velha contente.
- Por força!
XXVI
Meio dia.
Abrasa o sol a rechã onde se desdobra o bairro do Andaraí, precintado por um cordão de montanhas que lhe interceptam a passagem das brisas do largo.
É um desses dias de verão, que chofram de repente no meio de frias temporadas como vedetas ou postos avançados do estio a explorar as névoas do inverno, e fazer experiências no barômetro dos calos e reumatismos dos velhos fluminenes.
Um tílburi pára no portão da chácara de D. Leonarda; e dele apeia-se um mancebo trajado com a severa elegância, que revela o espírito superior, irisado pelo prisma brilhante da imaginação, mas contido pelo recato da dignidade. No fim do curto passeio de murtas apareceu um negrinho que dobrava o outão de casa; logo após outro pirralho, e outro, até que formou-se uma pinha dos tais diabretes.
O mancebo caminhou a eles para confiar a um o seu cartão de visita; mas não tinha dado três passos, que a alcatéia alvoriçou, dispersando-se pelo terreiro afora e escondendo-se por trás da casa.
Abrira-se porém a porta de entrada, e apareceu no patamar uma mucama:
- O senhor é S. doutor Ricardo?
- Ricardo Nunes, confirmou o advogado.
- Pode entrar.
Acha-se o mancebo na sala de visitas, extensa peça, embora um tanto estreita, com cinco janelas rasgadas sobre o jardim, cujas ramadas lhe cobriam as portadas de verdes sanefas, por onde envolta com a fragrância do jasmim coavase a luz, peneirada no crivo das folhas e roseada pelo reflexo dos lilases.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.