Por José de Alencar (1875)
Estendeu-se um couro no chão e os camaradas trataram de baldear o conteúdo dos alforges e odres para as vasilhas dos estômagos. Êsses descendentes dos caboclos seguem a mesma regra daqueles: não guardar comida, nem fome, para o dia de amanhã. Assim não carregam a primeira, nem esperdiçam a segunda.
A comezaina corria no meio das pilhérias e galhofas dos bandoleiros.
— O tal sr. Fragosinho não cochila, gente! disse o Beijú. Lá no Inhamuns quanta diabinha bonita havia foi direitinho para o jiquí. Agora vai meter-se em filha de capitão-mór!…
— Que tem lá isso? perguntou com tom arrebitado a Rosinha, que estava de lado sentada em um galho sêco e almoçava laranjas e passoca em uma cuia. Por ter pai de farda vermelha, não é mais bonita do que as outras.
— De que certa faceira de meu conhecimento, não é; isso juro eu, menina.
Rosinha sorriu mostrando dois rocais de pérolas, finos dentes orientais. Tinha ela todo o busto e uma parte do rosto envolto por um mantéu escarlate, que lhe servia de capuz; mas o que se entrevia e o que se adivinhava da fisionomia como do talhe, denunciava encantos de fascinar.
Eram além daquele sorriso perlado, uns olhos negros e aveludados que cintilavam sob o capuz como estrêlas em noite procelosa, uma cintura de vespa, e um pé arqueado que aparecia por baixo da orla da vasquinha parda.
— Raimundo, homem, passa para cá a mandureba! Olha o diabo, como escorropichou!
— Não sei que tem êste vinho, hoje! observou Moirão, enxugando a bôca do sôrvo. Acholhe assim um travo como de engaço! Não sentem?
— Deixe ver!
— Eu já lhe tinha sentido.
— Há de ser da borracha.
— E não é só o vermelho; a branca também tem o mesmo gôsto.
— Mas vão escorregando; que dizem? Ainda nenhum se engasgou que eu visse.
— Então, Rosinha, não tomas um trago também?
— Para beber à sua saúde, sr. Onofre.
— Pois vá lá. À nossa, feiticeira!
— André, dá um pulo lá embaixo, homem, e tira as mochilas dos cavalos, para que almocem também! Vão correr mais do que você, que já forrou a tripa, cabra velho.
A essa recomendação do Corrimboque levantou-se o André e dirigiu-se ao lugar designado com o seu alforge de couro cheio de carne e farinha.
Terminada a comezaina, o Onofre passou nova revista à sua gente, designando a cada um seu pôsto e insistindo nas primeiras recomendações.
O lugar escolhido para a emboscada não podia ser mais azado. Era uma brenha, defendida ao sul por um serrote íngreme. O caminho passava entre duas rochas a que pela forma convexa tinham dado o nome de Baús. À direita ficava o alcantil; à esquerda o bamburral que terminava logo adiante em um vasto alagado. Para tornar impossível aos cavaleiros o trânsito pela espessura, o Onofre havia levantado no meato uma perfeita estacada entre a rocha e o pântano.
Assim a comitiva na volta não tinha outra passagem senão a estrada; e, trancada esta, seria obrigada a fazer um longo rodeio, ou a retardar a sua marcha por algumas horas enquanto abria caminho. Desta circunstância, tirara o Onofre todo o partido para a cilada.
Tecera o bandeirista uma grade de rêlho e a atravessara diante dos dois penhascos, amarrando as pontas em árvores novas, de um e outro lado. Vergara depois essas árvores como costumam fazer os caçadores nas armadilhas; e a teia ficou estendida no chão coberta de terra e fôlhas sêcas.
Por artes do cigano incumbido de enfeitiçar o baio, conta Onofre que a filha do capitãomór será a primeira a passar pelos Baús. Apenas ela se ache do outro lado, que o Corrimboque e o Raimundo cortarão as cordas das árvores; e estas voltando à posição natural, levantarão consigo a grade que deve fechar a estrada.
Então, separada a moça da comitiva, ainda que tenham passado com ela algumas pessoas, é fácil ao bandeirista consumar o rapto. A Rosinha saltará na garupa do baio; com uma das mãos tapará a bôca de D. Flor para impedí-la e gritar e com a outra a estreitará ao peito, enquanto o Onofre bemmontado, tomando o beio pela brida, disparará com êle e a donzela.
Para reforçar a grade de couro, preparou Onofre outra barreira. É uma ramalhuda braúna, já serrada pelo tôpo e que a um empurrão do Aleixo Vargas cairá sôbre o caminho, trancando-o com uma sebe viva e emaranhada.
Enquanto o capitão-mór e sua gente esbarrarem nessa embrechada, o Onofre tem tempo de pôr-se a salvo com a donzela e recolher-se ao Bargado.
Antes de concluir o novo exame da emboscada, sentiu o bandeirista a língua trôpega:
— Diabo dêste vinho do reino!… Não sei que mistura lhe deitaram!… Querem ver que pôs-me, meio lá, meio cá? Eu me entendo é com o patrício!
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.