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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

No entanto a imagem da riqueza esplêndida, brilhante, radiando galas e luzimentos, passava diante de seus olhos e o deslumbrada; um pouco de coragem, e seria o único senhor do tesouro fabuloso, cujo era o italiano depositário do segredo. 

Mas coragem é o que lhe faltava; por duas ou três vezes o aventureiro teve um ímpeto de suspender-se ao frechal, e deixar a tábua rolar no abismo; não passou de um desejo. Venceu afinal a tentação. 

Teve um momento de desvario: os joelhos acurvaram-se; a tábua sofreu uma oscilação tão forte, que Rui admirou-se de como o italiano se tinha podia suster. 

Então o medo desapareceu; foi substituído por uma espécie de raiva e frenesi que se apoderou do aventureiro; o primeiro esforço lhe dera a ousadia, como a vista do sangue excita a fera. 

Um segundo abalo mais forte agitou a tábua, que oscilou à borda do rochedo; porém não se ouviu o baque de um corpo; não se ouviu mais que o choque da madeira sobre a pedra. Rui, desesperado, ia soltar a prancha, quando chegou-lhe ao ouvido, abafada e sumida, a voz do italiano, que apenas se percebia no silêncio profundo da noite. 

— Estais cansado, Rui?... Podeis tirar a tábua; não preciso mais dela. 

O aventureiro ficou espavorido; decididamente esse homem era um espírito infernal que planava sobre o abismo, e escarnecia do perigo; um ente superior a quem a morte não podia tocar. 

Ele ignorava que Loredano, com a sua previdência ordinária, quando entrara no seu cubículo para tirar a prancha, tivera o cuidado de passar por um caibro do alpendre, que era de telha-vã, a ponta de uma longa corda, que caiu sobre a parte de fora da parede uma braça distante da janela de Cecília. 

Assim, apenas deu o primeiro passo sobre a ponte improvisada, o italiano não se descuidou de estender o braço e agarrar a ponta da corda, que logo atou à cintura; então se o apoio lhe faltasse, ficaria suspenso no ar, e, embora com mais dificuldade, realizaria o seu intento. 

Foi por isso que os dois abalos produzidos pelo seu cúmplice não tiveram o resultado que ele esperava; logo do primeiro, Loredano adivinhou o que se passava na alma de Rui; mas não querendo dar-lhe a perceber que conhecia a sua traição, serviu-se de um meio indireto para dizer-lhe que estava em segurança, e que era inútil a tentativa de precipitá-lo. 

A tábua não fez mais um só movimento; conservou-se imóvel como se estivera solidamente pregada ao rochedo. 

Loredano adiantou-se, tocou a janela da moça, e com a ponta da faca conseguiu levantar a aldraba; as gelosias abrindo-se afastaram as cortinas de cassa que vendavam o asilo do pudor e da inocência. 

Cecília dormia envolta nas alvas roupas do seu leito; sua cabecinha loura aparecia entre as rendas finíssimas sobre as quais se desenrolavam os lindos anéis dourados de seus cabelos. O doce amortecimento de um sono calmo e sereno vendava seu rosto gracioso, como a sombra esvaecida que desmaia o semblante das virgens de Murilo; seu sorriso era apenas enlevo. 

O talho de sua anágua abrindo-se deixava entrever um colo de linhas puras, mais alvo do que a cambraia; e com a ondulação que a respiração branda imprimia ao seu peito, desenhavam-se sob a lençaria diáfana os seios mimosos. 

Tudo isto ressaltava como um quadro dentre as ondas de uma colcha de damasco azul que nas suas largas dobras moldava sobre a alvura transparente do linho os contornos harmoniosos e puros. 

Havia porém nessa beleza adormecida uma expressão indefinível, um quer que seja de tão casto e inocente, que envolvia essa menina no seu sono tranqüilo e parecia afugentar dela um pensamento profano. 

Chegando-se à beira daquele leito, um homem ajoelharia antes como ao pé de uma santa, do que se animaria a tocar na ponta dessas roupagens brancas que protegiam a inocência. Loredano aproximou-se, tremendo, pálido e ofegante; toda a força de sua vigorosa organização, toda a sua vontade poderosa e irresistível, estava ai vencida, subjugada, diante de uma menina adormecida. O que sentiu quando seu olhar ardente caiu sobre o leito, é difícil dizer, é talvez mesmo difícil de compreender. Foi a um tempo suprema ventura e horrível suplício. 

A paixão brutal o devorava escaldando-lhe o sangue nas veias e fazendo saltar-lhe o coração; entretanto o aspecto dessa menina que não tinha para sua defesa senão a sua castidade, o encadeava. 

Sentia que o fogo queimava-lhe o seio; sentia que seus lábios tinham sede de prazer; e a mão gelada e inerte, não se podia erguer, e o corpo estava paralisado; apenas o olhar cintilava e as narinas dilatadas aspiravam as emanações voluptuosas de que estava impregnada a sua atmosfera. 

(continua...)

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