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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Não, Deus me livre; a tarde deve acabar como principiou, séria e filosófica. Olha, d. Celina, há pouco me chamaste – sábia; – agora eu digo que somos duas filósofas. Quem nos ouvisse teria de achar-nos bem modestas.

– D. Mariquinhas!

– Vamos ao que importa: eu te fiz uma pergunta, e não quiseste responder-me; hei de arrancar-te a resposta à força. Fizeste há poucos dias dezesseis anos, d.

Celina; eu sou mais velha três anos...

De repente começou Mariquinhas a rir-se muito.

– De que te estás rindo assim?

– Ora... de uma coincidência.

– Qual!...

– Tu hás de ser toda tua vida uma pobre inocentinha, e em toda tua vida precisarás de uma mestra bem complacente.

– Começas outra vez?

– Não, é verdade. Lembra-te que na noite em que fizeste treze anos, aqui, neste mesmo quarto, uma boa amiga foi tua mestra, e te explicou com bastante habilidade o que era certo sentimento que ignoravas; o que era amor.

– Oh! que bom tempo! disse Celina suspirando.

– E hoje, neste mesmo quarto, uma outra boa amiga tua te está dando lições de filosofia amorosa.

– Acabaste já?...

– De falar sobre a coincidência, acabei, mas agora vou tratar do que muito nos importa.

– Pois fala; mas não gracejes.

– Tens dezesseis anos, d. Celina, continuou Mariquinhas; és bonita, mesmo bem bonita, deram-te muitas prendas, deves ser sensível, e por conseqüência não te achas com vocação para o claustro.

– Por quê?...

– Porque já sabes o que é amar um homem, porque muitos cavalheiros sem dúvida já se prostraram diante de ti, já te juraram um amor imenso... desesperado... eterno... que há de passar além da morte; já te declararam muito positivamente que tua indiferença é capaz de matá-los...

– Oh! basta... que quer dizer isso?

– Quero dar-te um conselho de amiga.

– Qual?...

– Que não tenhas medo de que esses senhores se deixem morrer por tua causa.

– Ora, d. Mariquinhas...

– Que não acredites neles...

– Certamente que não.

– Escuta: quando um homem se chegar a ti e começar a fazer o elogio de tua beleza, como se fosse um poeta que recitasse um cântico, e depois a jurar amor, constância, paixão e ardor por toda a eternidade, desconfia dele; os homens que mais falam são os que mais mentem.

– E os que não falam?... perguntou Celina.

– Esses não dizem nada, respondeu Mariquinhas com ingenuidade.

– Ora, tornou a “Bela Órfã” com um movimento de desagrado, disso já eu sabia.

– Então o que é?...

– Dizes que não devemos acreditar naqueles que falam muito e juram sempre; bem. E naqueles que de longe nos olham medrosos... tristes... modestos... mas que nos olham com fogo, e que abaixam a cabeça quando suas vistas se encontram com as nossas?

– Esses, respondeu Mariquinhas, das duas uma, ou amam deveras, e pela primeira vez na vida, ou são piores que todos, são hipócritas.

Fez a “Bela Órfã” um novo movimento de impaciência.

– E como distinguir?... perguntou ela.

– Estudando-os em seu proceder.

Celina calou-se.

– Tu tens uma história para me contar, disse Mariquinhas abraçando-a.

– História?...

– Sim: a história de um moço triste e modesto que te ama, que nunca te falou de amor, mas que te olha com olhos de fogo.

A “Bela Órfã” corou.

– Somos duas amigas... quase da mesma idade; que pejo é esse?

– Eu não sei.

– Fala.

– Não ouviste outra vez rumor à porta?

– Qual! é a tua imaginação.

– Vou ver sempre.

Celina foi de novo à porta do quarto; olhou para um e outro lado, e não viu ninguém.

– Fala agora.

– Ah! D. Mariquinhas! exclamou Celina caindo nos braços da amiga; eu sou bem infeliz!...

CAPÍTULO XXVII

CONFISSÃO DE AMOR

CELINA estava muito comovida.

– Anima-te! disse Mariquinhas.

– Tu já amaste? perguntou aquela.

– Agradecida pelo cumprimento, respondeu-lhe a amiga. Com que, tendo eu apenas dezenove anos, entendes que já não posso responder senão pelo passado?

– Pois bem, d. Mariquinhas, tu amas?

– Vamos mal: eu vim para perguntar, e não para responder. – Mas tu amas?

– Desconfio que sim.

– Pois somente desconfias?

– És muito simples, d. Celina.

– Por quê?

– Porque ainda não sabes que entre nós, as moças, desconfiar, neste assunto, é saber de certo.

– Ah!...

– E tu?

– Eu?... então se tu amas deves ter sofrido muito.

– Sim... sim... sempre se sofre mais ou menos; e tu?...

– Eu também.

– Conta-me isso.

– Não se pode contar o que eu sofro.

– Mas por quê?

– Parece que não é nada, e é muito: é uma dor... um desassossego... um abalo interno que se não pode explicar.

– Pois basta que me contes a história do teu amor; farei idéia de tuas penas pelas minhas.

(continua...)

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