Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Que tens ouvido?...
— Nada.
— Que tens visto?
— Coisa nenhuma.
— Que tens pensado... sentido... suspeitado?...
— Absolutamente nada.
— É porque tens sido um tolo.
— Qual tolo, meu padrinho! lá, de dia trabalha-se...
— E de noite?
— Dorme-se.
O moço não pôde deixar de rir-se da resposta de seu afilhado; alguns minutos depois continuou no seu interrogatório.
— E tu onde dormes?
— No sótão... mesmo por cima do quarto dele.
— No sótão?... ah! tu já me tinhas dito; bem bom, Carlos, bem bom; mas isso é quase uma honra...
— Foi em atenção àquela senhora que falou por mim.
— Eu sei... eu sei; porém, vamos: tu dormes no sótão, mesmo por cima do quarto dele... eis aí meio caminho andado; deverias ter visto e ouvido muita coisa...
— E o forro?...
— Arranca-se uma tábua.
— E a bulha?...
— Então desce-se ao sobrado para espreitar...
— E as portas?
— Que têm as portas?
— Durmo trancado.
— Pateta!... não há chaves falsas no mundo?...
— E o tempo que se gasta em procurá-las?...
— Pois bem... e o tempo que se tem perdido?...
— Qual perdido, meu padrinho!... fiz coisa melhor do que tudo isso.
— E então para que me quebras a cabeça? fala.
— No sótão e junto da minha cama há uma tábua quebrada no assoalho; arranquei-a.
— E depois?...
— Restava o forro: arranjei uma verruma e, à mercê dela, fiz um buraco, que chega para metade de meu olho.
— Bem; e depois?...
— Aprontei um pauzinho redondo, e pintado de branco...
— E para que essa asneira?...
— Para ter o buraco tapado de dia.
— Está bom... está bom; tens razão, adiante...
— Às dez horas de todas as noites apago a minha luz; levanto com cuidado a tábua velha do assoalho; tiro o meu pauzinho do forro; e fico com o olho no buraco.
— Vamos... vamos...
— Quando ele não tem divertimento, recolhe-se às dez horas.
— E o que faz?...
— Lê livros ou periódicos.
— E depois?...
— Despe-se, e vai deitar-se.
— E depois?...
— Dorme.
— E enfim?...
— E, enfim, vou eu também dormir.
— Pois é preciso não dormir, Carlos.
— Mas, meu padrinho, é que se não pode trabalhar no dia seguinte.
— Pois faze-te doente.
— Dar-me-ão remédios.
— Toma-os.
— E se eu morrer?...
— Mandarei fazer-te um riquíssimo enterro.
— Obrigado, meu padrinho.
— Tu és um preguiçoso... um descuidado, e um tolo!... não tens feito nada... nada... nem trabalhado por fazer.
O menino pareceu vivamente incomodar-se com o desgosto de seu padrinho.
— Mas... eu não pensava!... o que é que se pode colher de um homem que dorme?!...
— Oh!... o sono, Carlos, o sono pode ser bem fatal a um homem! quem sabe se ele não sonha?... quem te assegura que ele em seus sonhos não possa dizer alguma coisa que nos seja útil?... Carlos, o sonho do homem é mil vezes o traidor de seus pensamentos!... e, portanto, é preciso que tu o observes de dia e de noite; no trabalho e no descanso; na vigília e no sono!
— Porém, eu não hei de dormir nunca?!...
— Também tens razão, disse o moço rindo-se de novo; façamos, portanto, um ajuste; a que horas dormes?...
— À meia-noite, e às vezes depois.
— E quando te levantas?...
— Às cinco e meia.
— Bem: vela depois que ele dormir mais uma hora, e dorme quatro e meia.
— Velarei hora e meia e dormirei quatro.
— Carlos, tu és muito bom.
— Oh! meu padrinho! exclamou o menino abraçando o moço.
— Precisas de dinheiro? perguntou este.
— Ainda tenho bastante.
— Excelente rapaz!
— Meu padrinho está contente de mim?...
— O mais que é possível!
O menino demonstrou o seu prazer, saltando e batendo palmas loucamente.
— Aquieta-te, travesso, disso o moço; ainda temos que falar.
O menino tomou de novo o seu lugar; e ficou mudo, sério e atento como um ministro de Estado que vai ouvir uma interpelação.
— Durante estes cinco dias, observa o nosso homem, se nada colheres, fica em casa; se houver novidade ou precisares de alguma coisa, achar-me-ás aqui; depois, será como dantes, às oito horas da noite junto ao templo do Carmo.
— Estou ciente.
— Agora ajuda-me a mudar esta roupa, que ainda tem manchas de sangue.
— Foi uma queda horrível, não é assim, meu padrinho?
— Sim... uma queda; mas quem te disse que foi horrível?...
— Eu pensava... uma queda, em que se quebra a cabeça...
— Pois eu não quero que penses desse modo, Carlos.
— Então como?...
— Foi uma queda abençoada, ouviste?
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.