Por Lima Barreto (1911)
— Eu, porém, não me oponho...
— Não é isso. Quero-o sempre a meu lado e tenho que a glória dos resultados de suas pesquisas vai ser para mim um padrão de valor político e grandeza do meu ministério. Defenda-se, Doutor, defenda-se!
— Não é difícil. Sei bem que o desconhecimento dos deputados das ciências modernas, leva-os a ataques desabridos. Eles não conhecem a Citologia Experimental e ignoram os mais simples elementos da Citomecânica. — Uma ciência nova, Doutor?
Xandu perguntou, virou-se um pouco na cadeira, descansou a cabeça sobre o braço que se apoiava na mesa pelo cotovelo.
— Sim, Doutor. São experiências recentes de mecânica celular, que pretendem estabelecer experimentalmente não só o que é uma célula em si mas o que são os diversos órgãos celulares e também quais são as relações recíprocas desses órgãos e as relações da célula em presença do meio ambiente ou de outras células.
As rugas aumentavam na testa de Xandu e Bogoloff continuou com método:
— Estudei sempre as experiências feitas para reproduzir artificialmente o protoplasma e as figuras cariocinéticas , a ação dos agentes físico-químicos e os movimentos das plastidas; as relações do núcleo e do citoplasma; as modificações experimentais da mitose e a sedimentação do óvulo.
— Doutor — disse Xandu, mudando de posição — os seus trabalhos são de um valor incalculáveis. A minha esperança nas suas experiências é ilimitada!
— Eu, Doutor, estudei a adaptação, os tropismos, tatismos, a quimiotaxia, o fotauxismo das plastidas, profundamente.
O ministro recostou-se na cadeira, olhou demoradamente o sábio russo e recomendou:
— Doutor, defenda-se por escrito. Publique no meu relatório, a sair, as linhas gerais do seu plano, mas não divulgue o seu segredo para que não nos furtem a glória. Depois de ter feito isso, a fim de deixar o agudo do momento político, vá viajar pelo Brasil em comissão que lhe encarregarei.
Bogoloff obedeceu à recomendação do seu ministro e apresentou sem demora a defesa escrita dos seus aperfeiçoados projetos zootécnicos. Xandu publicou-o e a ciência nacional respeitou o valor do russo e teve como certos os seus propósitos.
Ficou Bogoloff encarregado de visitar os Estados, de estudar-lhes a pecuária; e de ver se em algum deles já não se procedia espontaneamente conforme as idéias técnicas do diretor.
Como não tivesse Bogoloff predileção por este ou aquele Estado, pôs dentro da copa do chapéu vinte pedaços de papel com o nome deles e mandou que um dos seus contínuos tirasse um dos tais pedaços. Caiu-lhe por sorte justamente o Estado das Palmeiras, para onde partiu em breve.
Esse Estado, como se sabe, não é dos maiores do Brasil, nem dos menores; é dos médios. Tem uma população de cerca de um milhão de habitantes e uma lavoura de cana de açúcar que se arrasta através de dolorosas crises como a indústria de que ela é base.
A sua capital, a cidade de Tatui, tem uns cinqüenta mil habitantes e é uma desgraciosa cidade de casas baixas, quase sem calçamento, sem esgotos e com uma péssima iluminação pública.
Espanta logo a quem chega, com a quantidade de mendigos e pobres que possui, além da grande porção de gente que exerce ofícios miseráveis, como baleiros, carregadores, vendedores de água, pois não a há encanada.
Possui uma linha de bondes preguiçosos, servida por um único veículo, que só parte dos pontos quando está a meio de passageiros.
Quando o viajante se afasta da zona urbana, o espetáculo é mais miserável ainda. Só há palhoças de sapé, cercadas de pobres roças desanimadas; pelos caminhos encontram-se mulheres públicas meio rotas. carregando as esteiras em que realizam os seus tristes amores.
Pelo tempo que Bogoloff partiu, construía-se um teatro majestoso, num estilo compósito e abracadabrante.
Palmeiras já estava “salvo” pois tinha à sua frente o coronel Contreiras, filho do venerando José Maria. Essa sua filiação foi um dos grandes títulos eleitorais; e ninguém mais se lembrava desse homem, de sorte que na rua perguntavam:
— Quem é esse Contreiras?
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.