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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

"Sinto que isto o faça ficar desapontado; mas o que quer? Tenho paixão por Ambrosina; ela consentiu em acompanhar­me, e eu lancei mão dos meios que pude para consegui­lo.

"Adeus e perdoe­me, se não pude evitar o desgosto que lhe dou.

"Seu amigo e criado. — M. R.".

Quando Gabriel acabou de ler a carta, os remadores haviam já recolhido os remos, e o escaler permanecia no mesmo ponto, a jogar suavemente à mercê das ondas.

O amante traído sentia­se estrangular pela raiva. Crescia­lhe na garganta um novelo áspero que sufocava.

Suas primeiras palavras foram para pedir água. O velho apresentou­lhe uma ancoreta cheia dágua e uma garrafa de conhaque.

Gabriel bebeu de ambos e ergueu­se.

— Querem você enriquecer hoje mesmo?! perguntou ele aos homens.

Estes voltaram apenas o rosto.

— Dou­lhes uma boa quantia, se me puserem já em terra!

O velho sorriu e meneou negativamente a cabeça.

— Raios os partam! Miseráveis! exclamou Gabriel a esmagar na mão fechada em soco o seu chapéu de feltro.

Consultou o relógio; marcava três e meia. Se aquele maldito velho quisesse, ainda havia tempo de alcançar Ambrosina!

Pense bem... disse­lhe em voz baixa. O Senhor está velho, precisa descansar... Eu sou rico... posso dar­lhe com que adoçar os seus últimos dias...

— Quanto?...

— Uns cinco contos de reis...

— É pouco!

Dez!

— Deixe­me vê­los?

— Ah! não os tenho aqui comigo, decerto, mas dou­lhos em terra...

— Já não como araras com penas!...

— Juro­lhe, sob palavra, que lhe dou o dinheiro

— Mais vale um pássaro na mão que dois a voar!...

— Afianço­lhe que os meus dez contos são mais seguros que outro qualquer pagamento!...

— Pois então assine um depósito da quantia...

— Assino! anuiu Gabriel, procurando o seu lápis.

— Não, ocorreu o outro; tenho cá com que pôr o preto no branco... e as competentes estampilhas.

E sacou da caixa de popa uma escrivaninha perfeitamente guarnecida, que passou às mãos do rapaz.

— Seu nome? perguntou este.

O velho respondeu firmemente:

— Antônio Leão Cerqueira, para o servir.

Gabriel lavrou o documento de dívida.

— Aí o tem... disse, entregando­o ao carteiro.

Este leu e releu o escrito, dobrou­o depois, meteu­o na algibeira das calças.

— Torce pra terra! rosnou aos tripulantes. E o escaler virou de bordo.

— Depressa! gritou Gabriel. Não temos tempo a perder! Depressa!

E logo a cidade parecia vir a seu encontro, tal era a rapidez com que o escaler deslargava para a praia.

XXX

FULMINAÇÃO

Enquanto sucedia ao pobre Gabriel o que acabamos de ver, Melo Rosa tomava um carro de praça e mandava tocar à toda para Laranjeiras, correndo ao encontro de Ambrosina, que devia estar à sua espera, pronta a desferir o vôo, conforme entre si haviam combinado os dois velhacos.

E, estendido sobre as almofadas do carro, ia o Melo a pensar, sorrindo por entre as fumaças do seu charuto, na engenhosa estratégia que imaginara para livrar­se de Gabriel.

Àquelas horas estaria o toleirão a arrancar os cabelos, desesperado, a bordo de um escaler, em plena baía.

— Que tenha paciência! disse consigo o tratante. Piores cousas sofreram outros neste mundo!...

E passou a calcular o resultado do que havia urdido: Eram três horas. O vapor não levantaria ferro antes das seis... ele nada mais tinha que tomar Ambrosina e meter­se com ela a bordo. Gabriel seria posto em liberdade à meia­noite; e só então iria queixar­se à polícia; antes, porém, que esta se mexesse, já o Melo estaria longe!

E, de tão preocupado com estes raciocínios, não notou que o cocheiro do seu carro acabava, sem afrouxar na carreira, de ser substituído pelo nosso intrépido Jorge; como também que o carro já não levava a direção de Laranjeiras, porque no Largo da Lapa, em vez de subir para o Catete, tomou pela rua dos Arcos.

O Melo, completamente distraído, continuava de si para si:

— No fim de contas, tanto Ambrosina como o dinheiro do Gabriel, são duas fortunas bem ganhas, pois não se pode negar que muito arrisquei o pêlo para conquistá­las... Não fosse eu um sujeito esperto, que nenhuma dessas duas belas cousas me chegariam às mãos!...

(continua...)

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