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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Suponho que são dois atestados pouco ou nada conhecidos. A sua publicação, portanto, não é desnecessária.

Copio-os sem comentá-los, e cada um ajuíze deles como quiser. Ei-los aí:

“D. Frei Fabiano do Desterro, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, bispo do Rio de Janeiro, do conselho de Sua Majestade, etc., etc.: Atestamos que aos 18 dias do mês de outubro do ano passado, de 1747 às 4 para as 5 horas da tarde, assistindo nós a rogo dos Revms. Franciscanos do convento de S. Antônio desta cidade ao enterro do servo de Deus, frei Fabiano de Cristo, religioso leigo do mesmo convento, o qual havia falecido no dia antecedente pelas duas horas da tarde, vimos e presenciamos o seguinte: Que, havendo falecido o dito servo de Deus, de uma hidropisia e de umas chagas antigas e asquerosas que lançavam de si matérias pútridas, depois de morto nenhum mau cheiro lançava o cadáver. Que as ditas chagas estavam rosadas, vertendo sangue líquido. Que, esfregando nós as ditas chagas com um retalho do hábito do mesmo servo de Deus, e molhando-o no seu sangue, lançava este um cheiro suavíssimo que recreava o olfato. Que o cadáver tinha flexíveis as mãos, braços, pernas e juntas do corpo, em que se fez exame. Que tinha as cores do rosto tão naturais e agradáveis e os olhos tão cristalinos como se estivesse vivo, havendo mais de vinte e seis horas que tinha morrido. O que tudo nos pareceu e aos médicos que estavam presentes serem efeitos sobrenaturais e prodigiosos. E informando-nos nós da pátria, vida e costumes do dito servo de Deus, soubemos dos religiosos do dito convento que era natural do arcebispado de Braga, no reino de Portugal, que tinha 71 anos de idade, pouco mais ou menos, e 41 de professo na religião de S. Francisco desta cidade, dos quais gastara 37 em servir com fervorosa caridade na enfermaria do convento, e que finalmente fora sempre um religioso de vida inculpável e exemplar. Todo o referido é verdade, em fé do que mandamos passar a presente atestação, por nós assinada e selada com o selo das nossas armas neste nosso palácio episcopal da cidade do Rio de Janeiro, aos 2 de agosto de 1748. E eu, padre Agostinho Pinto Cardoso, escrivão da câmara eclesiástica, a subscrevi. (Assinado + D. Fr. Antônio, bispo do Rio de Janeiro. – Lugar + do selo. – Cardoso). Registrada a fl. 77 v. Do livro I do registro das letras apostólicas. Rio, 2 de agosto de 1748. – Sena.”

“Gomes Freire de Andrade, do conselho de Sua Majestade, sargento-mor de batalha dos seus exércitos, governador e capitão-general das capitanias do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Cuiabá, etc., etc.: Certifico e atesto que, indo eu ao convento de S. Antônio desta cidade, assisti ao funeral do servo de Deus, frei Fabiano de Cristo, religioso leigo do mesmo convento, vi e examinei haver falecido de hidropisia geral, e que algumas chagas que tinha, antigas e asquerosas, lançavam de si sangue puro e odorífero. Que tinha as mãos, pés e mais partes do corpo em que pôde fazer-se exame, inteiramente flexíveis. Que sendo o dito religioso em vida de cor muito macilenta, ao tempo que se fazia o ofício de corpo presente reparei que se lhe tornaram as cores do rosto tão rosadas e naturais, e os olhos tão cristalinos, melhor do que se estivera vivo, havendo mais de 26 horas que estava morto; o que tudo me pareceu e às mais pessoas presentes serem efeitos sobrenaturais e prodigiosos. Ultimamente sempre o conheci, de 14 anos que estou nestas capitanias, e geralmente de todos foi tido como um religioso de vida virtuosa e exemplar. Era natural do arcebispado de Braga, no reino de Portugal. Viveu 71 anos de idade, pouco mais ou menos, e morreu a 17 de outubro do ano passado, pela uma para as duas horas da tarde. Tinha 43 anos de corporação, havendo 36 ou 37 que servia de enfermeiro no referido convento, com ardente caridade evangélica.

“Todo o referido passou na verdade, segundo o que presenciei e as informações que tomei; em fé do que mandei passar a presente atestação, por mim assinada e selada com o sinete das minhas armas. S. Sebastião do Rio de Janeiro, 5 de setembro de 1748. – Gomes Freire de Andrade.”

É tempo de sair deste corredor, onde tanto nos havíamos demorado.

Entremos na enfermaria.

É uma sala espaçosa, sala que apresenta todas as disposições necessárias para o bom desempenho do mister a que era destinada.

Digo a que era destinada, porque atualmente, estando os frades capuchos do convento de S. Antônio reduzidos a muito pequeno número, é cada um deles, quando adoece, tratado na sua própria cela.

Quem entra na enfermaria vê à sua mão direita uma fileira de humildes e pobres leitos, e à mão esquerda, em frente desses, contempla três altares de espaldar.

(continua...)

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