Por José de Alencar (1872)
- Eis aí, replicou Soares; tu dizes que não podes inventar um noivo, no que eu plenamente concordo; e entretanto não cuidas de outra coisa senão desse invento. Fantasiaste como toda a moça um homem à tua idéia, como não se encontra neste mundo; e cotejando os outros de carne e osso com o teu exemplar, os achas a todos uns bonecos sem graça.
- Não é isto, papai; não sou romântica; bem ao contrário; se há coisa ridícula para mim, é o ideal desses heróis de romance que sabem tudo, podem tudo, e tudo adivinham. Para uma pobre moça como eu, seria um traste bem incômodo. O que desejo é um homem de caráter nobre, que me ame, e por quem eu sinta verdadeira estima e afeição, para desculpar seus defeitos e não ver suas fraquezas. Parece que não peço muito!
- Mas, Guida, até agora não pudeste encontrar este homem? Em nossa casa vem a flor do Rio de Janeiro; e se falta alguém, é porque assim o queres. Bastava uma palavra tua. Tu freqüentas os melhores bailes, conheces toda a sociedade escolhida da corte.
- Ainda é cedo! disse Guida.
- Cedo!... Agora vive-se depressa, minha filha; essa palavra quase que está eliminada do vocabulário da época. Dezoito anos é a mocidade da mulher, como os cinqüenta e cinco que já estão cá, são a velhice do homem. Amanhã pode ser tarde para nós ambos.
- Deixe-se dessas idéias, papai!
- Há quinze dias, me pediste para romper com o visconde por andar ele especulando com teu nome. Não me quiseste dizer de quem se tratava. Ontem me avisaram de um infame ajuste feito entre ele e o Nogueira, sob a garantia de teu dote.
- Eu já sabia, disse Guida.
- Tu sabias, sim; mas pensa qual deve ser a minha tristeza lembrando-me que te posso deixar só no mundo, à mercê de semelhantes infâmias. Se fosses pobre, a tua virtude bastava para defender-te; mas rica!... Serias o prêmio da especulação, a vítima das trapaças, o alvo de todas as ambições, que te disputariam como um privilégio de bondes, ou um monopólio d’água. Não te horroriza esta idéia, e não avalias das inquietações de teu pai?
Guida reclinou sobre a mão a fronte pensativa e Soares ergueu-se ao impulso da comoção que o abalava:
- Essa imensa riqueza, que me invejam, de que me serve, pois em vez de garantir, compromete o futuro de minha filha? Se com um milhão, dois, tudo quanto possuo, pudesse criar um homem digno de ti...
- Não se aflija! disse Guida meigamente passando-lhe a mão ao pescoço. Prometo escolher.
- Sério?... E quando?...
- Em um mês.
- Deus te abençoe, como eu, e te inspire.
O pai estreitou a filha ao coração.
- Mas, tornou Soares de súbito, é por tua vontade!
- Inteiramente!
- Sem constrangimento!
- Nenhum.
- Vou descansado.
Guida acompanhou o pai até o portão, onde o esperava o carro para levá-lo ao escritório. Pelo caminho folgavam os dois como camaradas de colégio ao sair da aula em véspera de feriado.
Ficando só, a moça foi esconder-se a um recanto do jardim, em um nicho de trepadeiras; e aí ficou cismando cerca de uma hora. A mágoa que disfarçara em presença do pai, derramava-lhe agora no lindo semblante uma doce tinta de melancolia.
À tarde Guida lembrou-se de ir ver a avó no Andaraí.
Aí vivia D. Leonarda retirada na chácara, onde nascera, no meio de uma récua de crioulas e um bando de moleques de todos os topes e de todas as cores. Aquela criação pululava e crescia à manga lassa, como bezerros do sertão sem freio e sem educação.
D. Leonarda, desde que a serviam nos poucos misteres para os quais bastava uma criada diligente, deixava a troça das mucamas na mais completa liberdade, até nove horas, em que punha-as todas, mães e avós de filhos, debaixo de chave, como donzelas recatadas; e nessa conta tinha-as a todas, crendo realmente enjeitados pelas vizinhanças os moleques que lhe enchiam a casa.
Além da sua perna e das contas do seu procurador, D. Leonarda não se ocupava doutra coisa senão dos moleques, de coser para eles, distribuir-lhes um vintém para cocada, e ensinar-lhes a rezar.
Quando o carro de Guida parou na frente da chácara, correu ao portão o enxame de moleques e a troça das mucamas, gritando e saltando para festejar a chegada da menina. Era sempre assim.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.