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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Foi combinado entre ambos um plano. Arnaldo tinha de acompanhar o capitão-mór. Jó seguiria o Onofre para saber o fim da expedição. No caso de verificarem-se as suspeitas, daria sinal a Arnaldo pela percussão da terra. 

Era porisso que durante o trajeto Arnaldo tinha o ouvido alerta. 

A princípio inclinou-se ao alvitre de prevenir o Campelo; porém receou que o tomassem por visionário, ou que fosse êle o motor de algum injusto desabrimento do capitão-mór contra o Fragoso. Seu pundonor repelia essa idéia de chamar em auxílio de seu ódio o poder do dono da Oiticica; êle, Arnaldo, não carecia de ninguém mais, senão de si, para combater seu inimigo. 

Não obstante, quando viu a pequena escolta com que saíu o capitão-mór, cerrou-se-lhe a alma e quis falar. Mas dominou-o ainda o mesmo receio. 

— Em todo o caso, para salvar D. Flor, basta o Corisco! pensou consigo anediando a longa crina do cardão que rinchava. 

À hora aprazada a bandeira estava montada e partiu do Bargado, saindo os cavaleiros de casa a um e um para não fazer tropel. Atrás do último foi Jó escanchado em um poldro que o Arnaldo lhe deixara para êsse fim. 

Luiz Onofre era um produto dêsse cruzamento de raças a que se deu o nome de coriboca. Assim como a sua tez representava a fusão das três côres, a alva, a vermelha e a negra, da mesma sorte o seu caráter compunha-se dos três elementos correspondentes àquelas variedades. Tinha a avidez do branco, a astúcia do índio, e a submissão do negro. 

O Fragoso não podia achar melhor instrumento para seu projeto; e até, segundo rezava a crônica de Inhamuns, não seria êsse dos primeiros furtos ou raptos de moça que o Onofre fizesse por conta do patrão, o qual tinha fama de grande corredor de aventuras. 

Ao primeiro alvorecer chegou o bandeirista com sua gente ao ponto designado. Depois que prenderam os cavalos e ataram-lhes o focinho com embornais para impedí-los de rinchar, seguiram todos o cabo, que os levou para dentro do cerrado. 

— Corrimboque! 

— Pronto! 

— Você fica no mundéu lá do outro lado para cortar a corda; e o Raimundo do lado de cá. Raimundo! 

— Rente! 

— Chegue cá! Está vendo êste angico vergado ao chão? Pois assim que me ouvir gritar ai, é cortar a corda, senão corto-lhe eu as orelhas. Está entendido? 

— Não quero destas graças comigo, sr. Onofre. 

— Cá o amigo Aleixo Moirão, não precida que lhe diga; fica ao pé do pau… 

— E lá vai a trabuzana! acrescentou o Moirão, fazendo gesto de quem mete as mãos para empurrar. 

— Quando for tempo! advertiu o Onofre. Onde está o Beijú? 

— Às ordens! 

— Lembra-se bem do canto da saracura? Do José Cigano?… Vamos a ver lá isso! 

O Beijú soltou um guincho que imitava perfeitamente o canto da saracura, e que estrugiu longe pela mata a dentro. 

— Está direito. Quem falta agora? Rosinha! 

— Que tem com ela? perguntou uma trêfega rapariga adiantando-se. 

— Já sabe, moça. Quando o cavalo da dama passar, é de um pulo escanchar-se na garupa e segurar bem a dita, e tapar-lhe a bôca para não gritar. 

— Fica ao meu cuidado. 

— Bem; tudo está corrente. Agora, moita; vamos esperar que passe a comitiva, para cuidarmos cá da pessoinha. Quem piar, tem contas comigo. Toca a deitar. Corrimboque, vá ver se os cavalos estão com os focinhos bem apertados pelos embornais, e leve-os para bem longe. 

Restabeleceu-se de todo o silêncio; e os emboscados permaneceram coisa de meia hora em completa mudez até que ouviu-se ao longe o tropel dos animais. Eram as duas comitivas já reunidas, que se aproximavam, e passando por diante do esconderijo, afastaram-se rapidamente. 

— Agora temos umas três horas por diante. Podemos quebrar o jejum. Amigo Moirão, mande buscar os alforges, e sobretudo as borrachas que devem estar bem apoiadas, pois foi esta a ordem do sr. Marcos Fragoso, nosso capitão e o mais chibante fidalgo de todo êste Pernambuco. 

— Alto lá, que o capitão é cá do Ceará, nascido em Inhamuns, na fazenda das Araras, onde morava o defunto coronel, antes de vir para o Bargado, disse Raimundo, acudindo pela terra natal. 

— Cá para mim que sou de Pajeú de Flores, tudo é Pernambuco, Raimundo, quer tu queiras, que não! 

— Pois eu, se não estivesse aquí no serviço do senhor capitão, lhe contaria uma história…

— Cabra mofino! 

— Mas chegando no Bargado, há de ver de que pau é a canoa. 

— É de pau que precisa ser descascado, Raimundo, e quero eu ter êste gôsto. 

Muito a-propósito voltaram Moirão e Corrimboque, trazendo os alforges cheios de comidas e os odres retesados de vinho português e de cachaça da terra. Essa vista aplacou a resinga do Onofre com o seu bandeirista. 

(continua...)

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