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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Aí, como no resto da casa, tudo estava calmo e tranqüilo; apenas via-se luzir na soleira da porta do aposento de Aires Gomes a claridade de uma luz. 

Um dos três chegou-se à entrada do alpendre, e esgueirando-se pela parede perdeu-se na escuridão que havia no interior. 

Os outros dois se dirigiam ao fim da casa, e ai ocultos pela sombra e pelo ângulo que formava um largo pilar do edifício, começaram um diálogo breve e rápido. 

— Quantos são? perguntou o homem que chegara. 

— Vinte ao todo. 

— Restam-nos? 

— Dezenove. 

— Bem. A senha?. 

— Prata. 

— E o fogo? 

— Pronto. 

— Aonde? 

— Nos quatro cantos. 

— Quantos sobram? 

— Dois apenas. 

— Seremos nós. 

— Precisais de mim? 

— Sim. 

Houve uma pequena pausa, em que um dos aventureiros parecia refletir profundamente enquanto o outro esperava; por fim o primeiro ergueu a cabeça: 

— Rui, vós me sois dedicado? 

— Dei-vos a prova. 

— Preciso de um amigo fiel. 

— Contai comigo. 

— Obrigado. 

O desconhecido apertou a mão de seu companheiro. 

— Sabeis que amo uma mulher?

— Vós mo dissestes. 

— Sabeis que é mais por essa mulher do que por este tesouro fabuloso que concebi esse plano horrível? 

— Não; não o sabia. 

— Pois é a verdade; pouco me importa a riqueza; sede meu amigo; servi-me lealmente, e tereis a maior parte do meu tesouro. 

— Falei; que quereis que eu faça? 

— Um juramento; mas um juramento sagrado, terrível.

— Qual? Dizei! 

— Hoje essa mulher me pertencerá; entretanto se por qualquer acaso eu vier a morrer, quero que O desconhecido hesitou. 

— Quero que nenhum homem possa amá-la, que nenhum homem possa gozar a felicidade suprema que ela pode dar. 

— Mas como? 

— Matando-a! 

Rui sentiu um calafrio. 

— Matando-a, para que a mesma cova receba nossos dois corpos; não sei por quê, mas parece-me que ainda cadáver, o contato dessa mulher deve ser para mim um gozo imenso.

— Loredano!... exclamou seu companheiro horrorizado. 

— Sois meu amigo e sereis meu herdeiro! disse o italiano agarrando-lhe convulsivamente no braço. É a minha condição; se recusais, outro aceitará o tesouro que rejeitais! 

O aventureiro estava em lata com dois sentimentos opostos; mas a ambição violenta, cega, esvairada, abafou o grito fraco da consciência. 

— Jurais? perguntou Loredano. 

— Juro!... respondeu Rui com a voz estrangulada. 

— Avante então! 

Loredano abriu a porta do seu cubículo, e voltou algum tempo depois trazendo uma tábua longa e estreita que colocou sobre o despenhadeiro como uma espécie de ponte suspensa. 

— Ides segurar esta tábua, Rui. Entrego em vossas mãos a minha vida, e nisto dou-vos a maior prova de confiança. Basta que deixeis esta prancha mover-se para que eu me precipite sobre os rochedos. 

O italiano achava-se então no mesmo lugar que na noite da chegada, algumas braças distante da janela de Cecília, onde não podia chegar por causa do ângulo que formavam o rochedo e o edifício. 

A tábua foi colocada na direção da janela; a primeira vez tinha-lhe bastado o seu punhal; agora também necessitava de um apoio seguro, e do livre movimento de seus braços. Rui colocou-se sobre a ponta da tábua, e segurando-se a um frechal do alpendre manteve imóvel sobre o precipício essa ponte pênsil em que o italiano ia arriscar-se. 

Quanto a este, sem hesitar, tirou as suas armas para ficar mais leve, descalçou-se, segurou a longa faca entre os dentes, e pôs o pé sobre a prancha. 

— Esperar-me-eis do outro lado, disse o italiano. 

— Sim, respondeu Rui com voz trêmula. 

A razão por que a voz de Rui tremia, era um pensamento diabólico que começava a fermentar no seu espírito. Lembrou-lhe que tinha na mão Loredano e o seu segredo; que para ver-se livre de um e senhor do outro, bastava afastar o pé e deixar a tábua inclinar sobre o abismo. 

Entretanto hesitava; não que o remorso antecipado lhe exprobrasse o crime que ia cometer; já tinha-se afundado muito no vício e na depravação para recuar. Mas o italiano exercia sobre os seus cúmplices tal prestigio e influência tão poderosa, que Rui não podia mesmo nesse momento esquivar-se a ela. 

Loredano estava suspenso sobre o abismo pela sua mão; podia salvá-lo ou precipitá-lo no despenhadeiro; e contudo dessa posição ainda ele impunha respeito ao aventureiro. 

Rui tinha medo: não compreendia o motivo desse terror irresistível; mas o sentia como uma obsessão e um pesadelo. 

(continua...)

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