Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Oh! tens razão; é assim mesmo, exclamou Celina.
– E depois, qual é a vida que vive daí por diante a esposa?... uma vida de mentiras e de fingimento nas assembléias, e de frieza ou de indiferença em casa. Em casa toma a posição de criada grave de seu marido; por suas mãos a toma. Tem por prazer a costura, e por ofício determinar o almoço, o jantar e a ceia. Quando o marido chega da rua ralha com ele... quando o marido sai ralha com os escravos; donde lhe veio esse mau humor?... do ciúme!... acredita que já não é amada!... quem teve culpa disso?... ela mesma, que se fez outra.
– Continua, d. Mariquinhas.
– Ora agora, prosseguiu a moça, eu acho tão fácil, tão belo, tão nobre seguir-se uma vida absolutamente oposta a essa!... uma vida que faria ao mesmo tempo o encanto do marido e a felicidade da mulher.
– Dize... dize.
– Mesmo depois de casada, a moça não se enfeita com esmero para ir a uma assembléia?... quais são os pensamentos que a ocupam quando ela está defronte do toucador?... Dois, principalmente: primeiro, não ser sobrepujada, não parecer menos bela que as outras senhoras; este sentimento nasceu conosco, e nos acompanhará em todas as épocas de nossa vida; o segundo, é o desejo de agradar, por que, sem ofender nem levemente sua pureza de esposa, uma senhora pode querer, e quer agradar. Pois não é, d. Celina, uma contradição indesculpável, um erro que custa a defender, o esmerar-se uma senhora casada em agradar, em parecer bela aos outros, e esquecer-se, e não fazer um só esforço para mostrar-se bonita aos olhos de seu marido?...
– Sem dúvida; sem dúvida.
– A moça que acaba de casar-se, não tem necessidade de mudar muito em suas relações com o homem que recebe por marido. Seu melhor empenho, seu maior triunfo estaria em continuar a ser a namorada de seu esposo. Pode parecer que seja isso muito difícil, mas eu não o creio.
– Então como? fala.
– Por que não há de a moça empenhar para prender seu marido os mesmos
meios de que ela se serviu para encadeá-lo quando se amavam solteiros?... quando de manhã aparecer-lhe, apareça-lhe penteada, vestida com simplicidade, mas sem negligência, com seu vestido apertado, fresca, louçã e bela, que, ou eu me engano muito, ou ganhará um abraço de seu esposo; gostava ele de ouvi-la cantar?... pois cante ainda, e cada vez mais aprimore sua voz. Dava-lhe prazer o piano? a harpa?... pois estude novas músicas, e em relação com o gosto do homem que ama; e converse com ele como dantes, meiga e pudibunda, e ao mesmo tempo amorosa; e, finalmente, sem deixar-se cair no ridículo (que seria então muito pior), obrigue a seu marido a ser ainda seu namorado à força de namorá-lo. Seria isto um impossível?...
– Eu não sei, mas, fala ainda.
– E sobretudo o pudor, d. Celina!... o pudor da senhora casada não deve diferir muito do pudor de uma virgem; de cada vez que uma esposa se veste diante de seu marido, perde um ano do fogo de amor.
– Oh! deve ser assim!
– O amor vive de mistérios, de imaginação, de segredos, de véus, de dificuldades, de oposição e de fogo; a realidade é fria como o gelo, a realidade o mata; a esposa deve aparecer aos olhos do esposo sempre pudibunda e recatada. Esse pudor, esse recato, esse rosto que cora, é uma espada cujo gume não se dobra nunca; assim ela será sempre bela, sempre nova para seu marido, cuja imaginação lhe dirá que ele não a compreendeu toda ainda, que o seu tesouro de inocência é inesgotável... e o amor não se há de acabar nunca, se na mulher houver sempre esse pudor que arremeda o da virgem, e no esposo houver sempre esse respeito que jamais falta a um homem delicado. O rubor da face de uma moça é tudo; uma senhora que cora ouvindo votos de amor de seu marido, não pode recear nem frieza, nem indiferença.
– Oh! D. Mariquinhas, exclamou Celina muito seriamente, d. Mariquinhas, tu és sábia.
Escutando a ingênua exclamação de Celina, Mariquinhas desatou a rir.
– Então eu te faço rir?...
– Pois então?... não me chamaste sábia?
– Mas é que tu dizes coisas que devem ser bem verdadeiras.
– Estimo que te aproveitem.
– A mim?
– Sim, algum dia poderão aproveitar-te.
A “Bela Órfã” sacudiu tristemente a cabeça e respondeu:
– A mim, não.
– E por quê?...
– Porque eu não me hei de casar.
– Ah! queres ser freira? tens vocação para o claustro?
Celina abaixou a cabeça.
– Dizem os homens que as moças têm duas maneiras muito notáveis de responder afirmativamente; que quando abaixam a cabeça e guardam silêncio, ou quando respondem simplesmente – não sei, – querem dizer que sim; mas eu sou capaz de jurar que desta vez tu, abaixando os olhos, d. Celina, quiseste dizer que – não.
– Começas a gracejar?
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.