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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Miguel endireitou para ele, e a dois passos parou e ficou firme como um soldado, mas sem dizer palavra: o menino fitou-lhe seus dois olhos de um modo tão penetrante, tão perscrutador, tão forte que, a despeito da influência de sua maior idade, Miguel teve de voltar a cabeça por não poder encará-lo.

— Que é isso lá?... disse o menino com voz argentina e firme.

Miguel nada respondeu; tirando, porém, a mão do bolso, estendeu o braço e mostrou-lhe o anel.

O menino arrancou-lhe o anel da mão, e correu para baixo de um lampião; depois, voltando com igual presteza:

— Onde está o dono deste anel?... perguntou.

— Na minha casa.

— Pois partamos.

E, tomando o braço de Miguel, o menino obrigou-o a andar tão depressa, que quase corriam.

Depois de alguns minutos de marcha, Miguel teve vontade de travar conversação com o seu companheiro.

— O senhor, disse ele ao menino, é irmão daquele moço que está em minha casa?...

— Não.

— Mas é seu amigo?

— Sim.

— Entendo: não tem parentesco nenhum com ele?

— Não.

— Oh! ele parece ser muito bom moço.

— Sim.

— É mesmo natural desta terra?...

— Que lhe importa?...

Esta última resposta foi dada de um modo interrogativo; mas com um tom tão terminante, que Miguel convenceu-se para logo que aquele estômago de criança não cedia nem ao mais poderoso emético.

Portanto, decidiu-se a guardar silêncio. Assim chegaram a casa.

Apenas entrando no quarto do moço loiro, o menino correu para ele, e, abraçando-lhe as pernas, exclamou:

— Ah! padrinho!...

— Está bom, Carlos, está bom; disse sorrindo-se o moço; não há tempo a perder. Deve ir a casa que tu sabes, e entrega este bilhete à mesma pessoa a quem tens entregado os outros: o que trouxeres, deve ser-me dado, quando eu estiver só.

O menino recebeu um bilhete, que o moço tinha escrito na tarde desse dia, e desapareceu correndo.

Miguel, que pretendia colher muitas reflexões da entrevista dos dois, convenceu-se para logo, ao ver a maneira por que se explicava o moço, que ainda depois da volta do menino se deveria contentar com saber que ele se chamava Carlos, e que o moço era seu padrinho.

E, para maior pena, o moço foi pedir à mãe Sara que, quando voltasse o seu afilhado, o deixassem a sós com ele; de modo que Miguel abriu a porta ao pequeno Carlos, e teve de ficar ao pé de sua avó, até que, passado um quarto de hora, apareceram os dois na sala.

— Adeus, mãe Sara! disse o moço; eu me vou... e algum dia receberá novas minhas... Adeus, Miguel!... Adeus também minha pequena afilhada de bonita madrinha!... oh!... vem cá, meu anjinho; quero dar-te um beijo... não é verdade que tua madrinha te beija também? eu creio que devo vir a ser muito amigo dela...

— Meu filho, disse a velha, pois ainda tão fraco...

— Este menino tem o braço bem forte para me sustentar. Adeus, pois, meus amigos... obrigado!... muito obrigado!...

Feitas as últimas despedidas, o padrinho e o afilhado saíram, deixando a avó e o neto a pensar neles.

— Este rapaz, repetia a velha muitas vezes, tem cabeça de doido e coração de santo! sempre tão alegre e tão afável!... o brejeiro zombou de mim todo o dia, ao mesmo tempo que me abraçava, e chamava-me sua mãe!... eu não sei por que, mas a gente por força há de querer-lhe bem!

Entretanto, os dois caminhavam, como podia o ferido, escolhendo de preferência as ruas mais solitárias; de minuto a minuto o menino voltava para trás seus dois belos pirilampos, como para convencer-se de que não eram seguidos. Finalmente, chegando a uma rua escura e feia, cujo nome importa pouco saber, eles entraram em uma casa de triste aparência.

Essa casa era habitada por uma família tão necessitada, como aquela que recebera o ferido; mas este ocupava um pequeno sótão, que nela havia; e posto que devesse pagar aluguel a esta família, parecia pouco conhecido dela, pois que apenas do corredor deu as boas-noites, e começou a subir vagarosamente a escada do sótão, enquanto Carlos foi pedir a chave da porta. Enfim, eles se acharam sentados defronte um do outro. Todo o sótão se compunha de uma saleta e dois pequenos quartos; neles não reinava nem luxo, nem miséria; era a morada de um homem solteiro arranjada um pouco menos à franciscana do que um quarto de estudante.

Quando o menino sentiu que seu padrinho já havia descansado, disse:

— Eu não sei por que meu padrinho, em lugar de me fazer ir todas as noites postar-me de sentinela junto ao Carmo, me não deixa antes vir encontrá-lo aqui!

— Porque poderiam seguir-te, ver-te entrar... e quem sabe as conseqüências?

— Ver-me entrar?... a mim?... perguntou o menino sacudindo a cabeça.

— Pois bem, meu vaidosinho, a cautela nunca fez mal... mas agora vamos ao que nos interessa: que novidades há?...

— Nenhuma.

— Quê!... pois nenhuma absolutamente?...

— Já disse até onde tinha chegado! ainda não fui mais longe.

(continua...)

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