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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Toda a cogitação de Macieira vinha desses casos em que o seu

incondicional apoio a Bentes tinha sido retribuído com tanta lealdade republicana. O seu poder, outrora discricionário, ia aos poucos se enfraquecendo. Apeado da chefia política de Palmeiras, nada mais conseguia. Xandu continuava a tratá-lo com toda deferência, mas não fazia as nomeações que pedia. Quem dominava agora era Contreiras ou melhor o Castrioto que governava o coronel agachando-se e bajulando-o.

A última nomeação que fizera Macieira, foi a de Bogoloff; e, como este tivesse autoridade para fazer algumas nomeações no Estado, os partidários de Contreiras começaram a atacá-lo. Os jornais não cessavam de troçar os seus planos; na Câmara, os ataques eram mais diretos e Xandu, cheio de tanto temor quanto em começo estava de confiança, estremecia na cadeira de ministro.

A votação do crédito destinado à instalação da Estação Experimental de Reversão Animal e Quadruplicação dos Bois fora pretexto para um ataque em regra à gestão de Xandu, qualificada de perdulária, fantástica, vítima de “contos do vigário” de estrangeiros audazes como esse tal de Bogoloff, que se fizera um curioso Cristo multiplicador de bois.

O audaz ministro tinha fé na ciência e ficou pasmo com o ataque que se fazia aos infalíveis processos de Bogoloff. Não podia compreender que não se respeitassem os estudos de um sábio e não se esperassem os resultados deles. O chefe do interregno governamental falara-lhe a respeito; e, Xandu, que, além de preparar no ministério o progressos das indústrias agrícolas, preparava também a sua chefia política do Estado das Tâmaras, temeu pelo seu destino político. Perdido o ministério, não poderia distribuir graças e favores; não arregimentaria, portanto, o partido à cuja testa ia ficar.

Xandu, no dia seguinte, não tomou de desgosto e apreensão o seu banho de frio, que tanta atividade lhe dava. Chegou ao seu gabinete amuado, triste, não assinou sequer um aviso e mandou ao fim de alguns minutos chamar o Dr. Bogoloff.

Não tardou que o russo viesse em obediência ao chamado do operoso Xandu. Bogoloff era meão de altura e tinha uns traços miúdos e sem relevo. Os seus olhos eram de um verde esmaecido, mas seguro na visada e perquiridores. Alegrou-se logo Xandu com a presença do diretor da sua pecuária.

— Sente-se, Doutor.

O russo sentou-se à direita de Xandu por trás de uma pilha de regulamentos e decretos a assinar. O ministro consertou o monóculo e disse com doçura:

— Mandei-o chamar, Dr. Bogoloff, por um motivo muito simples. É um mau vezo do nosso regime que tenhamos de dar satisfações ao público. Bentes, meu eminente chefe, julga isso totalmente prejudicial. Eu também; mas, como não sou chefe supremo, tenho que fazer concessões aos hábitos. Não sei, meu caro Dr. Bogoloff, se tem lido os ataques que têm sido feitos à sua repartição.

— Tenho, Doutor; mas os julgo tão inócuos e tão baldos de base que me supus dispensado de contestá-los.

— Seria assim, meu caro Doutor, se toda a população conhecesse as últimas descobertas da ciência... Eu estou perfeitamente certo da verdade dos seus processos, baseados na biologia transcendente; que eles são o resultado de úteis e profundas meditações. Mas essa gente por aí que nada conhece de ciência e não procura examinar a veracidade de seus processos, de que forma obedecem à alta ciência, acreditará nos ataques, nas mofinas, nas pilhérias dos superficiais.

— E que tem isso?

— Que tem, Doutor? Tem muita coisa. O seu cargo está entrelaçado com a

política.

— Como?

— Pois o senhor não foi nomeado devido aos préstimos do senador Macieira? O senhor não é amigo do Macieira?

— Sou?

— Pois bem. Como o senhor não deve ignorar, Macieira deixou com alguns constrangimentos a chefia da política das Palmeiras e, desde que ele não é mais chefe, as nomeações federais para lá não são feitas por propostas dele.

— E que tenho eu com isso?

— Ouça-me. O senhor Doutor Bogoloff, de posse da verba total da diretoria, pode fazer nomeações no Estado e nessas nomeações servir à política de Macieira. Eu sou amigo de Macieira, mas política é política, e estou fazendo demissões lá, para servir a Contreiras.

(continua...)

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