Por Aluísio Azevedo (1895)
- Eu lhe ofereci apenas o meu auxílio pecuniário...
- Quer ser então o meu protetor?
- Quero opor-me à desgraça de Teobaldo.
- Quanto o senhor é amigo daquele ingrato!
- Se a senhora se acha disposta a sair do Rio de Janeiro, arranja-se-lhe o necessário para a viagem. Concorda?
- Sim; creia, porém, que é mais pelo senhor do que por ele.
- Obrigado. Amanhã mesmo lhe chegará o dinheiro às mãos. Adeus.
Leonília foi acompanhá-lo até à porta e o Coruja saiu para ir ter com Teobaldo.
- Bonito! exclamou este, quando o amigo lhe prestou contas da sua comissão
- Fizeste-la bonita!
- Como assim?
- Pois tu foste prometer dinheiro à mulher? Não sabes que não tenho onde ir buscá-lo?- Dividiremos a despesa... eu posso arranjar a metade. Creio que, se lhe mandarmos uns duzentos mil réis.
- Duzentos mil réis! Isso nem dobrado vale nada para ela! Não conheces esta gente! Foi o diabo!
- E quanto entendes tu que é necessário dar-lhe?
- Sei cá! Nunca menos de cem libras esterlinas!
- Um conto de réis!
- Com menos disso duvido que ela se vá embora!
- Há de se lhe dar um jeito! Não te aflijas.
- E que eu estou sem vintém!
- Arranja-se...
- Não admito que te sacrifiques tão estupidamente! Ora essa!
- Descansa que não me sacrificarei.
Mas, ao tirar-se daí, André foi direitinho à sua secretária, sacou de uma das gavetas um pequeno pacote de notas de cem mil réis, meteu-o no bolso e saiu.
Quando tornou ao lado de Teobaldo, disse-lhe:
- Sabes? Está tudo arranjado.
- Hein? Como? Ela parte?
- Sim. Levei-lhe em teu nome oitocentos mil réis. Seguirá no primeiro paquete para Buenos-Aires e não tornará cedo ao Brasil.
- Ó desgraçado! Querem ver que lhe deste as tuas economias!
- Não; apenas o que fiz foi adiantar-te o dinheiro; depois de casado me pagarás.
- Nesse caso vou passar-te uma letra.– Para que? Não precisa.
XXI
E no entanto, à noite desse mesmo dia, travava-se entre o Coruja, D. Margarida e a filha desta o seguinte torneio de palavras:
- Então, seu Miranda; o senhor decide ou não decide o diabo deste casamento?
- Agora, agora Sra. D. Margarida, é que as coisas vão endireitando e, se Deus não mandar o contrário, pode bem ser que tudo se realize até mais cedo do que esperamos.
- Ora! já não é de hoje que o senhor diz isso mesmo!
E note-se que, depois que Teobaldo melhorara de circunstâncias, D. Margarida havia abrandado muito a 8spereza de suas palavras para com o futuro genro; isto quer dizer que ultimamente podia André, como no princípio de seu namoro, levar alguns presentes à noiva e mais à velha. Mas, nem por isso, deixava esta de falar às vizinhas, desde pela manhã até à noite, a respeito do célebre casamento da filha, que, segundo a sua expressão, parecia encantado.
- Pois se tu também não te mexes! gritava ela às vezes, ralhando com a rapariga. A titanto se te dá que as coisas corram bem como que não corram. Nunca vi tamanho descanso, credo! Ninguém dirá que és a mais interessada no negócio!
- Ora, mamãe, mais vale a nossa saúde!... respondia Inez, invariavelmente. O que tem de ser traz força!
- Oh! que raiva me metes tu quando dizes isso, criatura!
- Mas se é...
- Qual é o que! Cada um que não trate de si para ver como elas lhe saem! Não me tiram da cabeça que, se apertasses um pouco o rapaz, ele talvez até já tivesse aviado por uma vez com isto! Já com a tal história do ensino foi a mesma coisa; tu, tanto remancheaste, tanto te descuidaste, que afinal lá se foi tudo por água abaixo!
- Ora, eu ensino em casa da mesma forma..
- A quatro pintos pelados, que levam aí todo o santo dia a me atenazarem os ouvidos com o "b-a faz bá, b-e faz bé!" Ora; Deus me livre!
- Rendem quase tanto como uma cadeira...
- Mas não são certos. De um momento para o outro podes ficar sem nenhum... Ao passo que a cadeira...
- Mais vale a quem Deus ajuda...
- Sim, mas Cristo disse: "Faze por ti que eu te ajudarei". E é justamente do que não te importas - é de fazer por ti!
Estas conversas acabavam quase sempre arreliando a velha, que por fim lançava à conta do Coruja toda a responsabilidade do seu azedume. Porém o que mais a mortificava era o falatório da vizinhança, era o comentário dos conhecidos da casa, que principiavam já a zombar abertamente do "tal casório".
A mezinha está só esperando a idade para casar.... diziam eles em ar de chacota, para mexer com o gênio da velha.
E conseguiam, porque D. Margarida ficava furiosa; mas não contra aquele e sim contra o pobre André.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.