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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Não há, não, senhor... Foram todos para a Ilha...

— Que ilha, criatura?

— A ilha dos Cães...

— Mas que diabo foram fazer lá? O que demônio aconteceu aqui?

— Para falar a verdade, não sei, meu rico senhor... Não entendo destas cousas! Sou amigo velho do Jorge... cá estava a cavaquear um pedaço com ele, quando chegam dois sujeitos, armados de tinteiro, pena e papel, e vão entrando, sem mais nem menos, pela casa, a tomarem nota de tudo que encontram... O Jorge pôs­se a chorar como um perdido... Quatro homens, que acompanhavam os do tinteiro, lançam­lhe a mão e o intimam a seguir para a ilha! Ora, aí está tudo o que se passou!

— E ele foi?...

— Foi, sim, senhor! E pediu­me, por tudo, que não saísse aqui da porta enquanto V. S. não chegasse e recebesse o recado...

— Que recado?...

— O recado é que ele pede à V. S. que faça o favor de dar um pulo até lá onde ele está. É questão de um instante! O Jorge deixou um escaler já preparado. Se V. S. quiser, eu o levo e trago num abrir e fechar de olhos!...

Gabriel hesitava perplexo; consultava o relógio e a carteira. Que significaria tudo aquilo... A carta de Ambrosina e as vagas palavras daquele velho idiota punham­lhe a cabeça a arder.

— Sabe se, antes da chegada do tais sujeitos, havia o Jorge recebido alguma intimação da justiça?... perguntou ele, depois de um silêncio de alguns segundos.

O velho respondeu que não sabia.

— Ora sebo! gritou o rapaz. Afinal, estou sempre na mesma!

— O Jorge é quem lhe poderá dizer tudo, patrão! Não vale a pena arreliar­se! Se quiser falar com ele, o escaler está às ordens.

Gabriel passeava de um para outro lado, procurando descobrir o fio da meada.

— Ah! exclamou ele de repente. Já sei!

E concluiu de si para si que o Melo Rosa fora prevenido das intenções do Jorge a seu respeito, e engendrara aquele meio de desfazer­se do cocheiro.

— Não é outra cousa... resmungou. Verão que não é outra cousa!...

E, convencido do que pensava, deu um novo curso ao seu raciocínio: Ainda não eram duas horas; o vapor só levantaria ferro às seis e meia... Às três podia ele estar de volta, já entendido com o cocheiro, e apto por conseguinte a tomar qualquer resolução enérgica contra o Melo. Se fosse preciso, podia até queixar­se à polícia... ali andava com certeza grande abuso! o que convinha era prevenir Ambrosina que se acautelasse contra alguma armadilha... O Melo Rosa pagaria caro aquela brincadeira! mas, por então, urgia que Gabriel se entendesse com Jorge...

— Onde está o escaler?! perguntou ao velho.

— Ali mesmo, patrão. É só descermos um pouco... Aqui é costa...

— Mas, preciso de um portador para as Laranjeiras, observou o rapaz, escrevendo um bilhete a lápis, no qual relatava à Ambrosina as suas desconfianças e lhe aconselhava toda a cautela com o Melo. É verdade! o carro em que vim pode servir. Chame o cocheiro.

O bilhete foi expedido, e Gabriel acompanhou o catraeiro até à entrada da praia do Flamengo.

— Aqui está o bote! disse o velho, apontando para um escaler preso ao cais. Isto é decidido! Corre que nem um carapau!

A embarcação, nova e garbosa, balouçava­se voluptuosamente na cadência da vaga.

Fazia um tempo abrasador e cheio de luz.

A baía reverberava ao sol. As montanhas erguiam­se cruamente do seio das águas, que as refletiam por inteiro.

Havia dois homens no escaler. O velho entrou nele agilmente e, depois de ajudar Gabriel a embarcar, assentou­se ao leme, e gritou para aqueles em voz de comando:

— Toca!

Abriram­se os remos, e o bote ganhou a baía arrancando um galão farto de cada vigorosa braceagem dos tripulantes.

Em breve distanciaram da terra, deixando atrás a fortaleza de Villegaignon.

O velho ergueu então a cabeça. O seu primitivo ar de ingenuidade desaparecera de todo, substituído por uma áspera catadura de lobo do mar.

— Ao largo! disse ele com autoridade.

— Para onde diabo vamos nós? perguntou Gabriel.

Não lhe responderam.

— Onde fica a tal ilha?

O mesmo silêncio.

— Mas, com todos os diabos! você zombam de mim?!

O velho, sem desfranzir as sobrancelhas, tirou do peito uma carta e entregou­a ao seu interlocutor.

Era de Melo Rosa e dizia o seguinte:

"Caro Sr. Dr. Gabriel.

"Ao ler esta, estará V. S. cheio de apreensões e receios. Dissolva­os — nada lhe sucederá, a não ser o malogro da partida com Ambrosina.

"V. S. recuperará a sua liberdade somente à meia­noite, quando a referida senhora já se achará comigo em viagem para fora do Império. Os homens, que V. S. tem defronte de si e que o guardam à vista, são de confiança e estão pagos para não o deixarem fugir; escusa, por conseguinte, tentar qualquer meio que for de encontro ao que determinei.

(continua...)

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