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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Um fato tradicional no convento de S. Antônio exibe o mais seguro e incontestável testemunho das sublimes virtudes da paciência e da caridade do ilustre religioso e devotado enfermeiro, que tanto se elevava pela humildade.

Achava-se num dos leitos da enfermaria um velho frade impertinente por gênio, pela idade e pela moléstia, e de caráter irascível e violento. Em uma noite, e já muito tarde, desejou tomar um caldo, e chamou o enfermeiro pelo toque da campainha.

Frei Fabiano acudiu imediatamente, e atendendo ao pedido do velho doente, não querendo incomodar o ajudante e os serventes da enfermaria, que sossegadamente dormiam, correu ele próprio à cozinha, a fim de preparar o caldo.

Alguns minutos depois, o frade recebia a sua xícara de caldo. Provando-o, porém, e não o achando do seu gosto, atirou com a xícara cheia de caldo quente ao rosto do bom e zeloso enfermeiro.

Frei Fabiano ficou com a face ferida e queimada. Insensível, porém, à dor e cheio de angélica paciência, disse:

– Perdoe-me, meu padre. Eu vou preparar-lhe outro caldo.

O frade, confundido por um procedimento tão edificante, desfez-se em lágrimas e, esquecendo a moléstia, lançou-se fora do jeito, caiu de joelhos e exclamou:

– Perdão! Perdoe-me pelo amor de Deus a ofensa que acaba de receber!

Frei Fabiano levantou o velho religioso em seus braços e chorou com ele.

No dia seguinte, o prelado, vendo o enfermeiro com o rosto ferido, e não podendo conseguir que ele lhe revelasse a causa daquele dano, impôs-lhe o preceito da obediência e mandou-o falar. Mas frei Fabiano, cedendo ao dever que o obrigava a acusar o velho frade, pôs-se de joelhos aos pés do prelado, e com um crucifixo na mão, pediu e obteve o perdão do ofensor.

Realmente, só uma grande alma é capaz de tanta virtude!

Conta-se ainda que frei Fabiano, vendo-se perigosamente enfermo, alguns dias antes do seu falecimento, despediu, com suaves consolações, os religiosos que o cercavam e anunciou-lhes o dia e a hora do seu passamento, que exatamente veio a verificar-se, como ele o predissera, no dia 17 de outubro de 1747, pelas duas horas da tarde.

A notícia da morte de frei Fabiano, espalhada rapidamente pela cidade, chamou ao convento imenso povo que invadiu a capela do capítulo, onde estava depositado o corpo, e começou a lançar-se sobre o féretro para cortar pedaços do hábito de que estava vestido o cadáver, como se no pano que arrancavam levassem preciosas relíquias.

Tornou-se bem depressa necessário revestir o cadáver com um novo hábito e reclamar força pública para conter a multidão.

No dia seguinte, o enterro teve lugar com a assistência do Governador Gomes Freire de Andrade, depois conde de Bobadela, do bispo d. frei Antônio do Desterro e das pessoas consideradas da cidade.

Contam-se coisas extraordinárias observadas no cadáver do caridoso e humilde enfermeiro. Deixarei, porém, a cargo daqueles que depuseram sobre os fatos que em seu dizer se passaram, o cuidado de contar a história desses prodígios.

Frei Fabiano foi sepultado na quadra dos religiosos, no claustro, na segunda sepultura, começando a contar da capela do Senhor do Bonfim. Na parede que fica em frente da sepultura colocou-se uma tarja de mármore com a seguinte inscrição em letras pretas, e que ainda se conserva:

Sepultura do servo de Deus, frei Fabiano de Cristo, falecido em 17 de outubro de 1747.

Passados alguns anos, procedeu-se à exumação, e por ordem do bispo e do provincial foi selada a sepultura para ficar perpetuamente impedida, e os ossos do homem justo e caridoso, daquele que já gozava em vida grande reputação de santidade, passaram para uma caixa, sendo esta colocada na parede do corredor, defronte da capela do Senhor dos Passos, de quem tinha sido frei Fabiano o mais constante devoto.

O bispo e o provincial mandaram proceder a uma inquisição jurídica a respeito dos “numerosos milagres que fez o Senhor em testemunho da santidade daquele seu servo”, e vinte e nove pessoas deram depoimentos que se acham lançados no livro II do tombo da província, de folhas 84 a 100.

Não deixou de aparecer a idéia de pedir-se a canonização do frei Fabiano. Não se levou, porém, a efeito esse projeto por ser muito pobre a ordem dos capuchos e faltarem-lhe os recursos para as enormes despesas que seria indispensável fazer.

Eis aí a história, ou, se quiserem, a lenda de frei Fabiano de Cristo, tal como a achei e li.

Se o caridoso, paciente e humilde enfermeiro foi e é santo, não sei. Se por sua intervenção operou Deus milagres e prodígios, ignoro. Basta-me, porém, saber que foi um homem rico de virtudes, para louvar a sua memória.

No entanto, e ao menos por curiosidade, ajuntarei, a este passeio, a cópia de dois documentos que se referem a frei Fabiano e que foram escritos e assinados pelas duas principais personagens da terra naquele tempo – pelo governador e pelo bispo.

(continua...)

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