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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- What horror!... exclamou ela espantada com o disparate das cores. 

- A senhora não tem bom gosto, Mrs. Trowshy, disse Guida. Não sabe apreciar a originalidade! A inglesa disparou a rir, passando com extrema volubilidade do horror à gargalhada:

- How funny!... How funny!... 

- Não se ria, Mrs. Trowshy! Isto que a senhora está vendo é uma obra-prima! Que vigor de colorido! Que tons brilhantes!... Os versos de certos poetas, se fosse possível pintá-los, saíam assim. 

A mestra divertida com a travessura da menina, tomou tão vivo interesse, que segundo o seu costume entrou logo em colaboração. Mas Guida não estava de veia nesse dia, pois abandonando-lhe o pincel e a cadeira, esqueceu aquele divertimento e foi à cata de outro. 

Deu duas voltas pela saleta, sem lembrar-se de coisa em que esperdiçasse o tempo, porque de lição, não queria ela saber naquele dia, e tinha resolvido na sua fantasia um sueto. 

No fim de contas foi “Sofia” quem deu o tema para a nova travessura. Sentou-a Guida em uma cadeira defronte de si, com as patas dianteiras erguidas; e abrindo seu costureiro de pau-de-cetim embutido de ébano, dispôs-se a cortar para a felpuda cachorrinha um vestido de cauda à Pompadour, com dois tremendos pufos.

- Que está fazendo, Guida? 

- O enxoval para “Sofia”. É verdade: ainda não lhe comuniquei o seu próximo casamento com um gentledog que está apaixonadíssimo do seu dote! 

Nesse momento Soares apareceu à porta e chamou: 

- Guida! 

- Papai ainda não foi para o escritório?... 

- Chegaram visitas, quando ia sair, e trouxeram umas novidades que te hão de interessar!

- Ah! São figurinos? perguntou Guida ocultando sob um remoque a súbita emoção.

- É outra espécie de novidade. 

Travando-lhe da mão, Soares levou-a até o gabinete, e aí fê-la sentar perto dele na sua secretária. 

- Lembras-te da conversa que tivemos aqui neste mesmo lugar há perto de quatro anos? 

- Era tão criança então!... Se ainda hoje sou! atalhou Guida gentilmente. 

- Esperta! acudiu Soares beliscando-lhe o beiço; já estas preparando a retirada!

- Ah! então é um ataque? Foi bom prevenir-me! 

- Pois defende-te! Essa conversa, que tivemos há quatro anos, veio, recordo-me bem, por causa do susto que te causaram, com a invenção de que eu ia te casar antes de um mês com o Bastos. 

- Susto que ainda me faz estremecer, observou em aparte Guida. 

- Então eu te prometi duas coisas: primeira, que antes de completares dezoito anos, eu não te falaria nem por sombras em casamento; segunda, que tu mesma, de tua livre vontade e a teu gosto, escolherias um marido. 

- Disso me lembro perfeitamente, e o trago bem guardado; pois é a maior prova do bem que me quer e da confiança que tem em sua filha. 

- Ela merece tudo e mais, tornou Soares; mas a essas duas obrigações contraídas por mim correspondiam duas cláusulas a que de teu lado te submeteste.

- Vamos a ver. 

- De tua parte, me prometeste que em completando os dezoito anos farias logo tua escolha; e no caso de não concordar eu, por estar um de nós enganado, te sujeitarias durante um ano às provas a que eu submetesse o escolhido, para conhecer-lhe o caráter a arrancar a minha ou a tua ilusão. Foi isto? 

- Literalemnte. 

- Bem. Os dezoito anos se completaram há perto de três meses: e a escolha?... Está feita?

- Não, papai. 

- E quando se faz? 

- Quando aparecer aquele a quem eu devo escolher. Não posso inventar um noivo, papai! Tenho eu culpa se todos esses que me cercam nos bailes, e me perseguem com sua corte, me são indiferentes? Se nenhum desperta em mim a menor emoção, que se pareça com a afeição terna e pura da mulher por seu marido? Se os acho banais e ridículos, e me fazem rir, quando não me aborrecem? 

(continua...)

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