Por José de Alencar (1875)
— O senhor não falou esta mesma manhã de uma noiva, com quem já parecia justo e contratado? A-propósito do Dourado e daquelas formosas chinelas que ainda não tem solado?
— Ah! exclamou Fragoso sorrindo. Essa noiva de que eu falei, é precisamente aquela que lhe acabo de pedir, e que espero alcançar da sua generosidade.
— Visto isso, já contava como certo o seu casamento? retorquiu o capitão-mór, rugando o sobrolho.
— Tinha a esperança, que ainda conservo, de que vossa senhoria não me recusará a mão de D. Flor, tornou Marcos Fragoso. O Campelo calou-se.
— Que resolve, senhor capitão-mór?
— Eu pensarei.
— Já anunciei a vossa senhoria que parto amanhã, e careço de uma resposta para terminar agora mesmo esta minha pretensão de uma ou de outra forma.
O capitão-mór solenizou-se:
— O que lhe podemos dizer, sr. Marcos Fragoso, é que apressou-se em pedir nossa filha e pensar que ela estivesse à sua espera ou de outro qualquer.
— Será porventura alguma princesa? atalhou Fragoso, já não dominando o despeito.
— É nossa filha, a filha do capitão-mór Gonçalo Pires Campelo. Está ouvindo? Nós podíamos, se nos aprouvesse, escolher entre outros o sr. Marcos Fragoso para casá-lo com D. Flor; mas não admitimos que pretenda casá-la consigo.
— Quer isso dizer que seriam o senhor e ela quem me dariam a honra de admitir-me na sua família, em falta e coisa melhor, e por uma espécie de promoção ao pôsto de marido?
— É justamente isto, tornou o capitão-mór.
Fragoso calou-se. Com um movimento expressivo tirou o chapéu e conservou-o algum tempo na mão. Soou então no mato o canto estridente da saracura; e com pouca demora outro igual respondeu-lhe a cêrca de cincoenta braças para diante.
Então o moço capitão voltou-se com arrogância para o Campelo:
— Senhor capitão-mór, o assunto é muito sério. Pese bem a sua resolução.
— O capitão-mór Campelo só tem uma palavra. Disse não; é não.
— Pois saiba vossa senhoria que eu, Marcos fragoso, também só tenho uma vontade e irrevogável. Jurei que sua filha seria minha mulher e, com o favor de Deus, ela há de sê-lo.
O moço capitão fez com o chapéu um cortejo ao Campelo; e voltando à direita meteu-se pelo mato seguido de toda a sua comitiva, inclusive os pagens que ticavam as charamelas. O capitão-mór ficou um instante perplexo:
— Que disse êle? perguntou para o ajudante. Jurou que minha filha há de pertencer-lhe com o favor de Deus? Irá fazer alguma novena, Agrela?
— Ou alguma penitência, senhor capitão-mór.
A atenção do capitão-mór voltou-se para um grande tropel de cavalos que soara pela frente. Curioso de saber por si mesmo a causa dessa arrancada, apressou o passo do ruço pedrês.
VIII - Emboscada
Oculto nas vizinhanças do Bargado, Jó espiava a casa da fazenda e seus arredores.
O velho tinha a astúcia de um índio e talvez a adquirira no trato com os indígenas durante a robustez da idade e a aumentara com a experiência de sua vida quase selvagem.
Achou êle na mata uma grossa casca de pereiro, já despegada do tronco morto, e vestiu-a como um estôjo que o escondia desde a cabeça até os pés, deixando-lhe ver por entre as rachas do córtice. Êste aparelho, que êle completou com as ramas verdes da árvore, permitia-lhe transportar-se de um ponto para outro, sem que o percebessem. Era uma moita ambulante.
Arnaldo recomendara especialmente ao velho que observasse os movimentos de Luiz Onofre e da sua bandeira; pois suspeitava da vinda dessa gente, embora fosse tão natural que o Fragoso, tendo de atravessar o sertão de Inhamuns ainda infestado de índios bravos, se munisse de uma escolta maior do que trouxera do Recife.
Jó notou na véspera da montearia que Luiz Onofre saíra do Bargado com o Moirão e mais um camarada que levava um grande surrão ou alforge de couro, e só tornou à casa por tarde. Ao passar, o bandeirista dizia a um dos acólitos:
— Esta madrugada, quando o galo cantar a segunda vez, todos a-cavalo. Ouviu, Corrimboque?
— Não tem dúvida, sr. Onofre.
— E até lá, moita.
Concluiu o velho que de alguma expedição se tratava para a madrugada seguinte; e não era a montearia, pois havia recomendação de segrêdo. Quando Arnaldo veio à noite, êle comunicou-lhe o que sabia.
— É uma emboscada, disse o velho.
— A quem? perguntou Arnaldo.
— Ao Campelo. O capitão-mór é soberbo; ofendeu ao moço, êste vinga-se.
— Mas êle pretende a filha por espôsa?
— Então é que o pai a recusou.
— Ainda não, afirmou Arnaldo.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.