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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Ora... porque vivemos em um mundo notável, principalmente por suas contradições a respeito de nós outras. Dizem que somos fracas e frágeis; por conseqüência não é verdade que deveria haver muita desculpa para nossos erros?...

– Sim.

– Pois a nós é que se não perdoam tênues faltas; uma leviandade é quase um crime. E às vezes uma simples palavra dita com a maior inocência deste mundo desafia escarcéus tais, que é melhor não falar, d. Celina.

– Oh! parece que é assim.

– Ah! os homens e as mulheres!... olha; as aparências são em verdade todas em nosso favor. Somos flores que se cultivam, belas estátuas que se admiram, lindas santinhas que se adoram... nas aparências, d. Celina.

– E a realidade?

– Oh!... isso é outra coisa. Os homens entenderam lá a seu modo a teoria das compensações; bem vês que nos não podiam dar tudo... guardaram o bom para si.

Ninguém os chamará tolos por isso.

– E nós somos então...

– Ora... nós?... nós somos o que eles querem que nós sejamos; também!...

olha, d. Celina, durmo todas as noites com um sossego que não há igual.

– E todavia ninguém dirá que isso se passa assim.

– Em parte nós temos a culpa.

– Como?

– Com sistema, com arte, mesmo com esta nossa fraqueza, nós poderíamos, apesar de tudo, valer muito, e conservar um poder que fazemos por abandonar. Eu sou moça, mas observo; às vezes quando me rio, estou pensando bem seriamente.

– E o que observas?... no que pensas?...

– Observo o sistema de vida que seguem minhas camaradas logo que se casam, e penso que eu havia, que eu hei de seguir um outro bem diverso.

– É um segredo que guardas para ti só?...

– Não, eu o quisera dizer a todas as do meu sexo; ou me engano muito, ou faríamos uma revolução; d. Celina, eu sou reformista... quero a reforma do sistema doméstico.

– Como é isso?...

– Eu te vou dizer.

– Espera... disse a “Bela Órfã” erguendo-se; não sentiste chegar alguém à porta do quarto?...

– Não... mas vai ver sempre.

Celina chegou à porta, olhou para um e outro lado, não viu ninguém.

– Enganei-me, disse ela sentando-se de novo; fala agora, eu te escuto.

Mariquinhas começou a discorrer:

– D. Celina, eu não quero falar de uma moça que vive pobremente em solteira, e vai pobremente viver depois de casada cercada de privações e de filhos. Para essa, a misericórdia de Deus e a virtude, e gratidão de seu marido. Essa, coitadinha, já está por si mesma na posição em que mais se sofre física e moralmente, por si e por seus filhos. Eu quero somente falar naquelas que, podendo conservar-se de cima, no seio da felicidade, lançam-se por terra aos pés do infortúnio.

– Pois bem, disse Celina.

– Uma jovem senhora, bonita, moça como tu, ou como eu, que não é rica, mas que também não é pobre, que teve educação, que se estima, que é delicada, e que deseja fazer-se amar: o que faz ela?...

– O que faz ela?... perguntou Celina repetindo a frase de Mariquinhas.

– Encontrou um mancebo ardente, extremoso e belo; simpatizam ambos; falemos agora a verdade, d. Celina, como procede a moça? defronte de seu toucador empenha todos os esforços para se tornar mais bela, seus cabelos estão sempre atados primorosamente... há perfumes nos seus vestidos, fogo em seus olhos, graça em seus sorrisos, espírito em suas palavras, amor em toda ela, diante dele canta apaixonadamente; para agradar-lhe estuda com fervor a música, o desenho, a literatura, a dança, tudo; consegue o belo triunfo, faz de um namorado um escravo; seus pais aplaudem a escolha de seu coração... esse homem é enfim seu marido.

– E depois?...

– Depois?... essa moça não se lembra mais que a paixão esfria... oh! é incrível!... ela mesma trabalha involuntariamente por esfriá-la. De manhã seu marido a vê com os cabelos desgrenhados diante dele, erguendo-se do leito com os pés nus... o piano passa fechado meses inteiros... o canto lhe desagrada... o desenho a aborrece, ela não lê mais, não sorri, nem olha, nem fala, como sorria, olhava e falava dantes. E, se alguém lhe lança em rosto essa metamorfose, ela responde: “Consegui o que queria, o pássaro já está preso”. E a louca não pensa que o pássaro que pretendeu foi o amor desse homem, pássaro que vai fugir bem depressa.

– É assim, disse a “Bela Órfã”.

– Entretanto, continuou Mariquinhas, acontece o que devia acontecer: o coração do marido espanta-se daquela repentina mudança; procura ver de novo a bela moça de lindos cabelos, de escolhidas vestes, de olhar de fogo, de espirituosas palavras, de gracioso sorriso; e achando pelo contrário uma menina descabelada, sem graça, sem espírito, sem arte mesmo, recua... esfria, e às vezes desanima; e então grita a mulher contra a inconstância do homem. Falemos outra vez a verdade, D. Celina, o homem não tem culpa... a mulher que ele amava não é certamente essa, que então assim se lhe mostra.

(continua...)

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