Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— E quem a tinha posto lá?... perguntou rindo-se a velha.
— Provavelmente a mão de algum gênio benfazejo.
— E depois?...
— Mãe Sara ficou com o dinheiro, e acabou-se o sonho.
O moço loiro ria-se agradavelmente, observando a impressão que seu sonho produzia na pobre velha; depois de alguns instantes de silêncio, ela perguntou:
— E o outro sonho feiticeiro?
— O outro... o outro é com Miguel; eu queria repeti-lo à vista dele, porém mãe Sara lho contará.
— Vamos lá; e nada de inventar.
— Eu sonhei que ontem à noite tinha vindo uma moça visitar a mãe Sara...
A velha olhou espantada para o moço.
— Sonhei até que essa moça se chamava... se chamava... espere que me lembro... chamava-se Raquel!
— É possível...
— Sonhei que Miguel tinha faltado à sua promessa, contando à moça tudo quanto havia a meu respeito...
— Perdão, meu filho! exclamou a velha, perdão para Miguel; porque tudo isso é verdade!...
— Ah! é verdade?... melhor: pobre Miguel! se fosse eu, tinha feito ainda mais, inventava uma história bem comprida e mentia, como é de meu costume... pobre Miguel! por isso não o estimo eu menos.
— Meu bom filho!... feiticeiro!... feiticeiro!...
— Espere, mãe Sara; o sonho continua. Sonhei que a moça veio observar-me da porta do quarto... como era bonita!...
— É verdade... tudo verdade...
— Sonhei que logo depois ela entrou em outro quarto... no seu, mãe Sara; e foi escrever a uma amiga... também muito bonita, muito, mãe Sara! essa então era mais bonita ainda!... ora bem: quando a moça estava fechando a carta, chegou o pai, que a vinha buscar, e ela correu à sala...
— Sim... sim... foi assim mesmo.
— Agora o resto é melhor ainda: sonhei que eu me ergui da cama, e, encostando-me pelas paredes, fui pé por pé ao quarto de mãe Sara, abri a carta que a moça tinha escrito... oh! o ladrão da moça escreve bem!... mãe Sara, eu beijei a carta!...
— Brejeiro!... brejeiro!...
— E depois... olhe que tudo isto é sonho; depois eu virei a folha e escrevi no verso duas ou três linhas com quanta pressa podia; feito isto, retirei-me, e fingi outra vez dormir.
— Agora é muito! se fosse verdade...
— Estou dizendo que é sonho, mãe Sara, sonho só; olhe, pergunte à moça se, quando ela me observou, eu não estava dormindo; porém, mãe Sara, não me deixa acabar nunca!...
— Acabe... acabe, meu filho.
— Sonhei que, apenas tinha eu deixado o quarto, a moça tornou a entrar, e, selando a carta, entregou-a a Miguel.
— É tudo verdade.
— Sonhei, enfim, que a moça partiu com o pai para sua casa, e Miguel para Niterói... lá, Miguel entregou a carta... mãe Sara; no meu sonho eu vi também a outra moça lendo; ainda uma vez... como era bonita!...
— Meu filho, se isso é um sonho, foi um poder sobrenatural quem o fez tê-lo, para castigo de Miguel...
— Pobre Miguel! não falemos dele... eu o perdôo de todo o meu coração!... por conseqüência, tudo o que eu sonhei foi realidade?... — Pelo menos quase tudo...
— Ah! mãe Sara!... se se realizasse o resto...
— Pois ainda temos mais?...
— A última parte.
— Então acabe.
— Eu dizia que a moça que recebeu a carta era muito bonita... encantadora, mãe Sara!... pois bem... no meio de tudo isto... sonhei que me tinha casado com ela...
— Extravagante!...
— Despertei, soltando um grito de alegria...
— Enfim?...
— Achei-me, quando procurei minha mulher, só... com a cabeça quebrada... cheio de sangue... aborrecido de mim mesmo...
— Louco!... e por isso se faz de repente tão triste!
Nesse momento ouviu-se um sino que dava horas.
— Que horas são?... perguntou o moço com vivacidade.
— Uma.
— Mãe Sara, a minha galinha?...
— Às duas horas.
— Que fome, meu Deus!... que fome!... que fome!... A velha desatou a rir.
XXIII
Afilhado
Ouvindo o sinal das oito horas, Miguel correu para junto do templo do Carmo e, bem não eram ainda passados cinco minutos, logo viu chegar cuidadoso e apressado um menino, que era por força aquele de quem o moço loiro lhe dera os sinais.
Faça-se idéia da vivacidade personalizada: era esse menino, sem dúvida, com não mais de dezesseis anos; com cabelos excessivamente loiros e crespos; os olhos grandes, pretos, brilhantes e à flor do rosto, que, muito redondo, era ao mesmo tempo igualmente corado; o nariz pequeno, os lábios rubros; dentes belíssimos; o corpo delgado; e em todas as suas ações, em todos os seus movimentos ligeireza, rapidez, volubilidade: os olhos do menino brilhavam de noite como dois globos ardentes, em rotação contínua.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.