Por Lima Barreto (1911)
No Café do Rio, muitos como ele se juntaram, discutindo e sempre proclamando a salvação da República. Parecia que queriam voltar aos cruéis dias do florianismo. Na Avenida, da mesma forma, havia grupos de civis, discutindo com entusiasmo e era de supor que a excitação e a satisfação lhes tivessem vindo do brilho, da imponência e da majestade do préstito de D. Florinda, préstito que mostrou de que maneira Bentes era popular com os dotes do tio morto.
Benevenuto afastou-se cautelosamente daquele fervedouro de patriotas que ele não compreendia, por não querer julgá-los todos interessados e ambiciosos. Havia neles não sei quantas ilusões do poder do governo, da efetiva riqueza da pátria; havia neles tanta maldade, tanta intolerância em nome da República, que Benevenuto os evitava para não se irritar.
Sentia bem o vago da pátria, o misticismo da idéia, a sua força religiosa, e tinha medo que essa sobrevivência mesclada ao delírio republicano não desandasse em seringueira, em violência, em perseguições em nome de Bentes impassível e inerte.
De caminho para casa, viu no bonde que descia o senador Macieira. O homem vinha triste e certamente a tristeza lhe trouxeram as cogitações políticas.
De fato, Macieira tinha jogado mal a cartada. A sua resignação do cargo dera azo a que os seus adversários lançassem a candidatura de Contreiras. Seria lógico que os adversários de Macieira, que apoiava e desejava a presidência de Bentes, não a apoiassem nem a quisessem. Os adversários do senador de Palmeiras queriam, entretanto, a presidência de Bentes. Nesse ponto eram correligionários.
Esperando a chegada da mulher de Lussigny, o senador tinha procurado todas as influências que pudessem afastar o apoio de Bentes às ambições de Contreiras. Bastos falara com franqueza e afiançara que por ora nada podia fazer; que era melhor dar carne às feras e esperar a digestão sonolenta delas para domálas. Macieira, porém, não tinha esse sangue frio de estrategista político. Fora a Bentes.
— Qual, Doutor! — dissera. — O Contreiras não quer nada absolutamente...
Nunca se incomodou com política.
Entretanto, as notícias lhe chegavam desoladoras. A oposição se armava e os jornais anunciavam claramente motins de modo a permitir uma intervenção ou impedir que a assembléia deliberasse livremente.
Macieira punha as mãos na cabeça e pedia a Fuas que escrevesse denunciando o plano dos adversários. No dia seguinte, ele lia o artigo de Bandeiras e também a notícia da remessa de mais um batalhão para a capital das Palmeiras. Macieira corria ao Ministro da Guerra e este lhe dizia:
— Qual, Doutor! Não interviremos... É só para garantir as repartições federais.
Na capital do Estado, os “meetings” se sucediam e o senador dava ordens que aumentassem a polícia. Contreiras, até aí estivera calado; um belo dia, porém, apareceu uma declaração sua. Se era para felicidade do povo palmeirense, dizia ele, até agora escravizado a uma imunda oligarquia, punha a sua vida e a sua espada à disposição dos seus patrícios. Macieira correu a Bentes:
— Qual, Doutor! Contreiras é maluco... Não passa daquilo... Palmeiras é seu...
Macieira sossegava um pouco; mas, daí a dias, recebia telegramas que alguns dos seus correligionários, deputados estaduais, tinham aderido a Contreiras. A mulher de Lussigny não chegava; quis adiar a eleição; os deputados simpáticos a Contreiras não deram número e o projeto ficou encalhado. A mulher de Lussigny não chegava...
No dia da eleição a força federal que inflara o Estado, espalhou-se em pequenos destacamentos pelos municípios e Contreiras foi proclamado eleito. Restava o reconhecimento e a mulher de Lussigny não chegava....
Dias antes da apuração pela Assembléia estadual os oposicionistas armaram uma passeata de crianças; e por detrás dela começaram a hostilizar a polícia. Os milicianos fizeram fogo e um dos infantes morreu. Macieira foi chamado de assassino, de vampiro e os soldados do Exército alagaram a cidade, ameaçaram os amigos de Macieira e Contreiras foi reconhecido e proclamado governador do Estado das Palmeiras.
Procurando Bentes, este dissera compungidamente:
— Ah! Doutor Macieira! Eu não sabia... Julguei que o senhor fosse muito popular e estimado no seu Estado... Não está tudo acabado; havemos de harmonizar as coisas.
Macieira admirou-se que Bentes julgasse necessárias a estima e a popularidade para governar um país ou mesmo um Estado.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.