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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Ambrosina interrogava­o vagamente sobre o que fizera ele durante o dia.

Gabriel declarou que se achava tudo pronto, mas que encontrara grande dificuldades para obter o passaporte, porque ele não queria anunciar a sua partida, nem queria ocupar tampouco alguma pessoa de confiança que o abonasse.

E, depois de circunstanciar esse e outros fatos, declarou que já se não podiam arrepender... Só faltava embarcar!

— Parece­me que tens pena de deixar o Rio de Janeiro!...

— Que me importa o Rio, contanto que eu te tenha a ti!

E olharam­se com amor.

Laura não dava uma palavra; tinha o olhar disperso. Não se animava de encarar com Gabriel.

Estava cativadora. Vestia linho pardo, debruado de cadarço branco. A flexibilidade do seu corpo desenhava­se bem com aquela roupa inteiriça. Não levava outra jóia além de uma pequenina cruz de ouro sobre o peito. O chapéu de palha de Itália dava­lhe à fisionomia uma doçura admirável. Seria difícil dizer em que ia pensando aquela cabecinha!

E assim chegaram os três à casa de Laranjeiras.

Gabriel havia cambiado sua notas do Tesouro por dinheiro em ouro e saques bancários ao portador. E o esterlino ruído do metal, que ele acondicionava em uma gavetinha de segredo da secretária, fazia estremecer Ambrosina, que ao seu lado o apoquentava com perguntas.

Laura, estendida num divã da sala de visitas, alheia a tudo que a cercava, embalava­se nos seus sonhos, a cabeça caída sobre a almofada, os braços em abandono, os olhos meio cerrados, o pensamento solto.

Gabriel conversava com a amante, a mostrar­lhe o passaporte, o bilhete de viagem; e pouco depois, chegava um homem carregado de objetos que ele havia comprado na cidade, quase tudo roupa branca, mantas, agasalhos e charutos.

Jantaram à noite o que veio do hotel!

A manhã do dia seguinte correu sem novidade. O vapor, por motivos de moléstia do comandante que fora à última hora substitui­lo, só sairia ao pôr do sol. Gabriel andava atarefado; não sabia para onde voltar­se! Tinha ainda tanto que fazer!

Mas Ambrosina o tranqüilizava: Que não se incomodasse ele absolutamente com as malas; ela se encarregaria de tudo. Gabriel que fosse tratar de saber se Jorge tomara as providências necessárias para prender Melo Rosa.

Isso é que mais urgia!

Gabriel, porém, onde poderia encontrar o cocheiro?... Em casa era inútil procurá­lo àquela hora; já passava das onze. Saiu. Foi à residência do padrasto nada obteve. A criada, todavia, disse­lhe que o cocheiro pouco antes ganhara a rua muito azafamado.

— Onde o poderei encontrar agora?...

Gabriel desceu preocupadamente a escada; levava o chapéu atirado para trás, a cara Talvez no largo de 5. Francisco... banhada de suor.

Ao chegar à porta, encontrou um portador de Ambrosina à sua espera.

O que temos.? perguntou surpreso.

— Esta carta, que a patroa mandou entregar a vossemecê com toda a pressa.

— Que novidade será?

Era a carta combinada entre Ambrosina e Melo Rosa no sobrado da rua da Misericórdia.

Gabriel sobressaltou­se ao lê­la. Ora, mais essa! O Jorge sofrer aquele dia uma penhora! Era só o que faltava!

— Mas, com os diabos! exclamou ele, consultando o relógio. Não há tempo a perder! Praia do Russell! A toda a força! gritou ao cocheiro, volvendo ao seu carro.

E o carro disparou como um raio.

Apeou­se defronte da casa do Jorge. Um velho de longas barbas, estava assentado ao limiar da porta, saiu­lhe ao encontro e perguntou com ar triste:

— O senhor naturalmente é o Dr. Gabriel?...

Sim. Que é do Jorge?

— Não me pergunte por ele! Uma grande desgraça!

E o velho limpou os olhos.

Gabriel deu um passo para entrar na casa do cocheiro.

— Não entre! exclamou o outro, sempre comovido. Não está aí ninguém!... A justiça fez a sua visita e não se pode tocar no que lá está! O senhor bem sabe que o Jorge não pode apresentar o dinheiro e...

— Mas, que dinheiro? Que trapalhada é esta? O que tudo isto quer dizer? Explique­se por uma vez!

O velho fez um gesto de tolo, e falou confusamente em penhora, em dívida, em homens armados, mas sem explicar ao certo cousa alguma.

— Cada vez entendo menos! disse Gabriel, já impaciente.

E releu o bilhete de Ambrosina, que tirara da algibeira.

— Uma grande desgraça! respirava de vez em quando o velho, a sacudir tristemente a cabeça.

— No fim de contas, o que faz você aqui?...

— O Jorge disse­me que o esperasse..

— A quem, homem?!

— Ao senhor...

— E para quê?

— Para lhe dizer o que se passou e indicar­lhe o lugar em que ele está...

— Pois, se foi para você dizer­me o que se passou nesta casa que Jorge o deixou aqui, podem os dois limpar as mãos à parede, porque fiquei na mesma! Não haverá por aí alguém com quem me entenda!...

(continua...)

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