Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Reconheço o fundamento e justeza dessa observação. E como não tenho resposta a opor-lhe, nem argumento que lhe tire ou diminua a força, faço o que está em moda: apelo para a rolha e proponho o encerramento da discussão.
Encerrou-se a discussão, e votou-se, e fico declarado, por grande maioria de votos, tão bom escritor como Xavier de Maistre, ou ainda melhor do que ele.
Não vos admireis. As maiorias são às vezes tão despóticas como Luís XIV, e tão injustas como o Sinhedrim que condenou a Jesus Cristo.
Estamos, pois, no segundo andar do convento de S. Antônio da cidade do Rio de Janeiro.
Vejo, porém, uma escada que deve levar-nos ainda a um andar superior, e deu-me vontade de sacrificar a ordem regular destes passeios, subindo ao terceiro andar antes de estudar o segundo.
Quer vos agrade, quer não, haveis de sujeitar-vos à minha vontade. Subamos, pois, a escada.
Esse terceiro andar tem uma única face, se bem que fique no fundo do convento, olha para a frente e está fronteiro à Rua da Guarda Velha.
Examinemos o que se encontra nesse último pavimento.
Temos diante de nós uma pequena capela em cujo único altar se venera a imagem sagrada do Senhor dos Passos.
No seio dessa capela, que está quase junto da enfermaria e apenas dela separado por um muito curto corredor, estão depositados os corpos dos religiosos que chegam ao termo da sua peregrinação pelo mundo. Enquanto as almas sobem aos pés de Deus, os cadáveres são recolhidos à capela.
Entretanto, ela não foi sempre destinada para receber e guardar por algum tempo os restos mortais dos capuchos. Outrora, até o ano de 1747, ali se ofereceu habitação e descanso a um venerando religioso leigo do convento, que nesse lugar teve a sua cela durante toda a sua vida passada no Rio de Janeiro.
Perguntais-me quem foi esse homem?
Já lestes o seu nome sobre a campa de uma distinta sepultura do claustro. Tereis, porém, agora de lê-lo ainda uma vez. Deixai a capela, avançai comigo pelo corredor. Vinde.
Nesse corredor, que comunica a enfermaria com a capela do Senhor dos Passos, vê-se, à mão esquerda de quem vai para a enfermaria, uma pequena chapa de cobre pregada na parede, indicando o lugar onde se acham os despojos mortais de frei Fabiano de Cristo, e tendo a seguinte inscrição:
Ut quondam oegris quoerebas, Fabiane, salutem, Nunc etian votis auxiliare tuis.
Mas por que na casa humilde assim tão manifestamente se exalta a memória desse finado? Por que nas sepulturas dos religiosos todas as lousas são mudas, e apenas duas, e dessas duas aquela que caiu sobre a cova desse pobre leigo, falam com a voz da inscrição, anunciando o nome do religioso cujo cadáver escondeu no jazigo?
A estas perguntas, que certamente nos estais fazendo, vou responder, contando a história de frei Fabiano, como aliás já vos tinha prometido algures.
É a lenda de um santo que me cumpre repetir, e fá-lo-ei reproduzindo fielmente o que se encontra em livros e manuscritos do arquivo do convento.
Achar-se-ão nesta história belos exemplos da sublime virtude da caridade, e além deles, prodígios que a fé pôde receber, e sobre os quais não se deve emitir opinião alguma.
Eu não discuto. Limito-me a relatar com verdade o que li em papéis que me foram obsequiosamente confiados.
Frei Fabiano de Cristo, religioso leigo do convento de S. Antônio da cidade do Rio de Janeiro, era natural do arcebispado de Braga, no reino de Portugal. Veio ainda muito moço para o Brasil, e aqui no Rio de Janeiro tomou o hábito de franciscano capucho, com o qual viveu piedosamente durante quarenta e um anos, empregando desses não menos de trinta e sete em servir de enfermeiro com uma admirável caridade, e dando sempre exemplo de singulares virtudes. Aos 71 anos de idade, pouco mais ou menos, e aos 17 de outubro de 1747, faleceu, enfim, no mesmo convento de S. Antônio, sucumbindo a uma hidropisia e com o corpo martirizado por algumas chagas.
Era um homem tão venerando e de costumes tão irrepreensíveis que todos os religiosos capuchos e ainda as principais autoridades da casa o tratavam com o mais profundo respeito.
Apesar da sua modéstia e do seu recolhimento, frei Fabiano era conhecido e amado em toda a cidade; e diz-se que, freqüentes vezes, vinham ao convento enfermos ricos e pobres pedir ao simples leigo a sua intervenção perante Deus para conseguirem o seu restabelecimento, acrescentando-se que as orações e as preces de frei Fabiano eram de ordinário atendidas, e que muitos doentes lhe deviam assim a terminação dos seus sofrimentos ou a vida.
Efeitos naturais ou favores do Céu, essas curas davam ao
pobre leigo uma grande reputação de santidade.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.