Por José de Alencar (1872)
Os assaltantes se tinham aproximado sorrateiramente, emboscados atrás do pau, saltando de um toco a outro, com receio da bala certeira, que o bacamarte do capanga podia mandar-lhes por entre as frestas da gruta.
Chegados à borda do mato, ficaram à espreita, com os olhos fitos na solapa, que servia de entrada à caverna, e as espingardas apontadas para aquele alvo aguardando um resultado, que não ousavam provocar.
Tão preocupados estavam de sua própria segurança, que não repararam em um acidente importante. A boca da furna, pouco antes de uma escuridão profunda, desvanecera um tanto; indício de que, ou se abrira na caverna alguma fenda por onde penetrava a luz, ou se fechara a entrada com alguma lasca de pedra, na qual se refrangia a claridade exterior.
Passado longo trato nessa expectativa, soou enfim uma voz a gritar por detrás de grosso tronco de árvore:
- Entrega-te, bugre do inferno, senão morres!
Não teve resposta essa intimação; mas a voz depois de curta pausa continuou a bradar:
- Chegou o dia!... Vais sentir o gonzo deste braço, e saber para quanto presta o Suçuarana! Agora é que se quer ver a fama! Salta cá para fora, caborteiro, se és homem!...
Calou-se um instante o Gonçalo para escutar, e não ouvindo rumor na caverna, prosseguiu:
- Estás com medo, hein!... A valentia que arrotavas de papo cheio, fez víspora, não é? A coisa cheira a chamusco; e vais tratando de por-te de molho. Pois olha, desta vez escusa de estares aí embromando, que não escapas, nem por artes do diabo.
Cada vez mais animado com o silêncio e placidez que reinava na caverna como em seus arredores, o Pinta chegou a destacar-se do tronco da árvore, ao qual estava colado e lhe servia de guarita.
Agitando então os longos braços e batendo no chão com a coronha da clavina, berrou ele:
- Estás filado mesmo, Bugre dos trezentos; e quem t’o diz sou eu, Gonçalo Suçuarana, que jurou cortar-te as orelhas, e aqui está para cumprir o prometido.
Ainda não teve resposta a arrogante bravata do Pinta. Mas um seixo desprendeu-se do flanco do penhasco e rolou pela fraga abaixo com grande estrépito, aumentado pela natural repercussão do som nas grotas e barrancos do serrote.
De um salto, digno de onça, que ele tomara por seu xará ou tocaio, o Gonçalo alcançara o tronco protetor, e perfilou-se ao longo dele por tal modo, que não lhe aparecia fora a aba do chapéu sequer, ou a mínima dobra do poncho.
Tanto ele, como sua gente, cuidou que fosse aquele o começo das hostilidades por parte de Jão Fera; e com o dedo no gatilho, o olho da boca da furna, e o ouvido alerta para qualquer rumor, se prepararam para receber a investida do inimigo.
Bem viam que o Bugre não cometeria a imprudência ou tolice de apresentar-se em face deles, na boca da furna, a descoberto, oferecendo-se como alvo aos tiros. Por isso, embora confiados no número, não deixava de invadi-los um terror vago com a lembrança de algum assalto brusco do capanga, favorecido pelos barrocos e fojos daquele sítio escabroso, que ele devia conhecer como sua casa.
Todavia, depois que rolou a pedra do alcantil, se restabeleceu o silêncio que sepultava constantemente esse ermo, e só era interrompido então pelo zumbir das abelhas, ou pelo estalido das articulações dos insetos a saltar sobre a grama.
- Qual! rascou o Gonçalo com seu costumado entono. O cabra não se atreve! Ele conhece o degas; e sabe que eu não brinco.
- Mas desta maneira não se arrocha o cujo! acudiu um da troça.
- isso não! atalhou o Pinta. Aposto em como ele já se pôs ao fresco, muito concho de si, porque pensa que pode escapulir. Mas sai-lhe a coisa às avessas, que lá está da outra banda o Filipe com os outros camaradas.
- Bem pode ser; mas eu duvido. Que necessidade tinha ele de sair da concha onde está muito a seu gosto?
- Lá isso é verdade! Assim não se faz nada; é preciso desencafuar o bicho!
- Então vá lá.
Deram os assaltantes uma descarga sobre a caverna, e no meio do estrondo dos tiros ouviu-se a voz aguda e estrepitosa do Gonçalo Pinta, que mandava o assalto em berros formidáveis.
- Avança, camaradas! Fogo! Matem-me este Bugre endiabrado! Depressa, antes que fuja o danado!
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.