Por José de Alencar (1872)
Ao mesmo tempo D. Clarinha, a filha do barão, prendia ao peito do Soares a venera da Rosa cravejada de brilhantes. Patenteou-se o segredo; e as explicações correram ao redor da mesa.
Uma semana havia que no Jornal do Comércio começara a aparecer uma mofina concebida nestes termos:
“COMENDADOR CHENCHÉM”
“Um marreco bem conhecido na praça, por suas especulações e trapaças, assentou de fazer-se comendador de meiacara. O título ‘soa’ e não custa cinco ‘rés’ ou ‘réis’.
O banqueiro, quando lhe mostraram o jornal, riu-se:
- São as unhas do tratante do Aljuba... Não resta dúvida.
- É um desaforo! diziam-lhe os amigos.
- Pois eu tomo a coisa às avessas. É uma fineza, que ele me faz diferençando-nos.
Quem mais se incomodou com o caso foi o barão de Saí, que no maior segredo tratou de comprar a comenda para seu velho amigo, a fim de malograr a vil mofina. D. Paulina e Guida, de combinação com ele, prepararam a surpresa, a cujo desfecho acabamos de assistir.
Muitos dos convivas não se tinham apercebido da mofina, pela indiferença com que passam os olhos por essa arena da imprensa, onde se esgrime, de envolta com idéias e sentimentos nobres, toda a casta de paixão.
Valeu-lhes o Benício, que ninguém jamais apanhou desprevenido.
Submergindo a mão pelas profundezas do bolso, tirou dois ou três retalhinhos de jornal; eram exemplares da mofina que tinha o cuidado de cortar cada dia para apresentá-la cheio de pesar e indignação a quantos encontrava, aproveitando a ocasião para fazer o pomposo elogio de seu íntimo amigo, o Soares, que, isto é dele, “metia no chinelo todos os comendadores havidos e por haver”.
- A mofina?... Querem ver o desaforo?... Aqui está, essa pouca-vergonha! dizia o homem serviçal obsequiando aos vizinhos.
Erguera-se o Soares:
- Meus amigos. Isto nada vale por si, disse com o chasco habitual, pondo o dedo na venera; nada, nem como comenda, nem como jóia. Como “comenda”, é uma “encomenda”, que já não “recomenda” ninguém. Como jóia, eu tenho no coração do meu velho João, e dos amigos aqui presentes, um diamante de melhor água e quilate do que qualquer destes. Mas a intenção, essa é um tesouro; é a alma de um homem honrado e amigo dedicado. Sentiu-se que o Soares estava comovido.
- Guida, minha filha, vem cá. Toma esta jóia; ela te há de servir de broche. Em teu colo todos hão de admirá-la; e tu podes ter orgulho, minha filha, de adornar-te com a probidade de teu pai!
Guida lançou os braços ao pescoço do Soares.
Romperam os aplausos. A comoção era geral. Havia na reunião a eletricidade moral dos espíritos em ebulição, que só esperam uma centelha, para se inflamarem. A cena aí estava aberta; desenhada a situação; faltava só a palavra eloqüente, que a exprimisse.
Algumas vozes proferiram o nome do Dr. Nogueira, como o homem do momento. Ele hesitou: não tinha previsto o lance; podia arriscar a sua reputação; era mais prudente deixar-se ficar na penumbra desdenhosa de seu incontestável talento.
Foi então que Ricardo exaltando-se com aquela cena onde vibravam as cordas mais nobres e generosas do coração, ergueu-se num assomo de entusiasmo, e sua voz sonora, palpitando aos impulsos do sentimento, arrebatou a atenção geral.
XXV
Trila o piano. As notas frescas, brilhantes e vivazes de um romance de Schubert se escapam em enxames pelas janelas, voluteando, como os coleiros que esvoaçam pelo jardim, entre os ramos floridos dos resedás. Eram onze horas.
Mrs. Trowshy, sentada junto à mesa carregada de livros, mapas e outros objetos, espera gravemente que Guida se resolva a começar a lição; mas a menina inteiramente embebida na execução da música, nem se lembra da mestra. - Alons, Guida.
Afinal conhecendo, depois de três advertências inúteis, que perdia seu tempo, aproximou-se do piano e abriu o livro da música sobre a estante, para evitar que a discípula tocasse de cor.
Guida levantou-se logo do tamborete; e a mestra pensando que ela cedia-lhe o lugar para vê-la tocar a peça e corrigir algum engano, sentou-se ao piano e executou, com o maior escrúpulo, a linda composição de Schubert.
Mas Guida que ela supunha à sua beira, acompanhando atenta a sua lição, estava bem sentada à mesa, onde abrira a sua caixa de tintas e coloria uma aquarela, mas a seu moo, pintando a folhagem de encarnado, os bois e os carneiros de verde, e a água de amarelo.
Dando a mestra por falta da discípula a seu lado, tornou à mesa para observar a pintura da moça:
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.