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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— Soltei o Dourado, sr. capitão-mór; porém antes marquei-o com o ferro de D. Flor, como ela tinha-me ordenado, concluiu Arnaldo sem dar ouvido às observações impertinentes. 

O capitão-mór exultou: 

— Flor, já sabe? O Dourado está com o seu ferro. Não pediu? 

— Eu sabia que êle tinha de ser meu, e que Arnaldo é que o havia de amansar, respondeu a donzela sorrindo. 

— Mas que prova temos nós disso? volveu Daniel Ferro. 

— De quê? perguntou o sertanejo. 

— De ter pegado o boi e ferrado. 

Arnaldo olhou-o com surpresa: 

— A minha palavra, respondeu. 

Já soava o riso dos dois hóspedes do Fragoso quando o capitão-mór o atalhou: 

— A tua palavra, Arnaldo, que nós seguramos com a nossa. O que disse o nosso vaqueiro é a verdade, e somos nós, o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, que o afirmamos. Se há quem duvide… terminou com uma reticência cheia de ameaças, correndo os olhos em roda. 

— Quem é capaz de duvidar da honrada palavra de vossa senhoria? acudiu o João Correia. 

Desde que o sr. capitão-mór abona, está acabado. 

O Daniel Ferro foi prudente apenas, e afastou-se. 

— Mas então, como foi o caso, Arnaldo? Conta-me tudo, quero saber. Pegaste-o mesmo à unha? 

Arnaldo referiu singelamente ao capitão-mór os pormenores da corrida, sem omitir nem 

mesmo suas conjeturas acêrca da tristeza do boi, e da piedade que excitara nele a lágrima do corredor. O capitão-mór ouviu atentamente, inquirindo de cada circunstância, e aprovou o procedimento de seu vaqueiro. 

— Fizeste bem; não se deve informar um boi valente, é melhor matá-lo. 

Enquanto relatava ao capitão-mór a corrida, não cessou Arnaldo de observar o Marcos Fragoso, e viu a conferência que êle teve com o Ourém. 

— É agora na volta, primo Ourém, que pretendo falar ao capitão-mór sôbre o assunto que sabe; e decidir êste casamento, de que depende o meu sossêgo, pois quis o fado que eu não possa viver sem D. Flor. Espero que me ajudará. 

— Disponha de mim, primo; infelizmente não posso pôr à sua disposição: 

 

«Para servi-vos braço às armas feito, 

Para cantar-vos mente à musa dada.» 

 

— Guarde o braço; quanto à musa basta que ela entretenha as damas e os outros, enquanto me entendo com o capitão-mór. 

— Conte comigo. 

— Obrigado. Se a resposta for favorável, conhecerá pela demora e por meu semblante; se for contrária, há de ouvir-se o toque de charamelas; é o sinal para afastar-se logo do caminho e tomar direito pelo mato, onde nos reuniremos. 

— Sem despedir-me do capitão-mór? 

— A conferência há de acabar um tanto azedada; pelo que julgo mais prudente não a prolongar com despedidas. 

— Lá isso é verdade. 

— Previna o primo ao João Correia, que eu vou avisar ao Daniel Ferro. 

Instantes depois anunciou-se a partida. Vieram os cavalos, e Arnaldo trouxe pelo freio o baio, que apresentou a D. Flor; mas não deu tempo à moça de falar-lhe. Quando depois de ter montado ia a donzela dirigir-lhe a palavra, tinha êle desaparecido. 

Tornou a comitiva pelo mesmo caminho. 

A cêrca de meia légua da marizeira, onde as duas comitivas se haviam juntado, Marcos Fragoso, que seguia de par com o capitão-mór entretendo-o com uma conversa banal acêrca de fazendas de gado e outros assuntos do sertão, fez uma pequena pausa, e mudou de tom. 

As senhoras e os outros cavaleiros iam muito adiante escaramuçando e já não apareciam; o Agrela vinha atrás com a escolta. Tinha, pois, o Fragoso liberdade para  encetar o delicado assunto: 

— Agora, sr. capitão-mór, peço-lhe vênia para tratar de um ponto que me toca mais que nenhum outro, disse Fragoso; e releve vossa senhoria, se o faço nesta ocasião imprópria, mas como talvez saia amanhã para Inhamuns, não quis adiar. 

— Visto que está de partida e o caso é urgente, não nos negaremos a ouví-lo aquí, sr. capitão Marcos Fragoso, ainda que o direito era em nossa casa. 

— Bem o reconheço; mas a bondade de vossa senhoria supre esta minha falta.

— De que se trata então? 

— O muito e estremecido afeto que sinto por sua filha, D. Flor, e que eu acredito ser por ela retribuído, obriga-me a pedir sua mão a vossa senhoria, que decidirá, como pai que é, de nossa mútua felicidade. 

Passada a surpresa, o capitão-mór respondeu com severidade: 

— Nossa filha, sr. capitão Marcos Fragoso, não podia pensar em homem algum sem licença de seu pai. Fique sabendo. 

— Talvez me iluda; e nesse caso dela virá a minha desventura. Mas vossa senhoria, que decide? 

(continua...)

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