Por José de Alencar (1857)
Cecília, pálida de emoção, olhou o índio, admirada não tanto da sublime dedicação, como do raciocínio; ela ignorava a conversa que o índio tivera na véspera com o cavalheiro.
— Peri te desobedeceu por ti somente; quando já não correres perigo, ele virá ajoelhar a teus pés, e beijar a cruz que tu lhe deste. Não fica zangada!
— Meu Deus!... murmurou Cecília pondo os olhos no céu. É possível que uma dedicação tamanha não seja inspirada por vossa santa religião!...
A alegria serena e doce de sua alma irradiava na fisionomia encantadora:
— Eu sabia que tu não me negarias o que te pedi; assim não exijo mais; espero. Lembra-te somente que no dia em que tu fores cristão, tua senhora te estimará ainda mais.
— Não ficas triste?
— Não; agora estou satisfeita, contente, muito contente!
— Peri quer pedir-te uma coisa.
— Dize, o que é?
— Peri quer que tu risques um papel para ele.
— Riscar um papel?...
— Como este que teu pai deu hoje a Peri.
— Ah! queres que eu escreva?
— Sim.
— O quê?
— Peri vai dizer.
— Espera.
Ligeira e graciosa, a menina correu à banquinha, e tomando uma folha de papel e uma pena fez sinal a Peri que se aproximasse.
Não devia ela satisfazer os desejos do índio, como este satisfazia às suas menores fantasias?
— Vamos: fala que eu escrevo.
— Peri a Álvaro, disse o índio.
— É uma carta ao Sr. Álvaro? perguntou a menina corando.
— Sim; é para ele.
— Que vais tu dizer-lhe?
— Escreve.
A menina traçou a primeira linha, e depois por pedido de Peri, o nome de Loredano e dos seus dois cúmplices.
— Agora, disse o índio, fecha.
Cecília selou a carta.
— Entrega à tarde; antes não.
— Mas que quer isto dizer? perguntou Cecília sem compreender.
— Ele te dirá.
— Não, que eu...
A menina balbuciou, corando, estas palavras; ia dizer que não falaria ao cavalheiro e arrependeu-se; não queria revelar a Peri o que se tinha passado. Sabia que se o índio suspeitasse a cena da véspera, odiaria Isabel e Álvaro, só por lhe terem causado um pesar involuntário.
Enquanto Cecília confusa procurava disfarçar o enleio, Peri fitava nela o seu olhar brilhante; mal pensava a menina que aquele olhar era o adeus extremo que o índio lhe dizia.
Mas para isto fora preciso que adivinhasse o plano desesperado que ele havia concebido de exterminar naquele dia todos os inimigos da casa.
D. Diogo entrou nesse momento no quarto de sua irmã: vinha despedir-se dela.
Quanto a Peri, deixando Cecília, dirigiu-se à escada e achou os mesmos vigias, que depois embargaram a passagem de Rui Soeiro.
— Não se passa, disseram os aventureiros cruzando as espadas.
O índio levantou os ombros desdenhosamente; e antes que as sentinelas voltassem a si da surpresa, tinha mergulhado sob as espadas e descido a escada. Então ganhou a mata, examinou de novo as suas armas e esperou; já estava cansado quando viu passar a pequena cavalgata.
Peri não compreendeu o que sucedia; mas conheceu que o seu plano tinha abortado.
Foi ter com Álvaro.
O cavalheiro explicou-lhe como se aproveitara da ida de D. Diogo ao Rio de Janeiro para expulsar o italiano sem rumor e sem escândalo. Então o índio por sua vez contou ao moço o que tinha ouvido na touça de cardos; o projeto que formara de matar os três aventureiros naquela manhã; e finalmente a carta que lhe escrevera por intermédio de Cecília, para, no caso de sucumbir ele, saber o cavalheiro quem eram os inimigos.
Álvaro duvidava ainda acreditar em tanta perfídia do italiano.
— Agora, concluiu Peri, é preciso que os dois também saiam; se ficarem, o outro pode voltar.
— Não se animará! disse o cavalheiro.
— Peri não se engana! Manda sair os dois.
— Fica descansado. Falarei com D. Antônio de Mariz.
O resto do dia passou tranqüilamente; mas a tristeza tinha entrado nessa casa ainda na véspera tão alegre e feliz; a partida de D. Diogo, o temor vago que produz o perigo quando se aproxima, e o receio de um ataque dos selvagens, preocupavam os moradores do Paquequer.
Os aventureiros dirigidos por D. Antônio, executavam trabalhos de defesa tornando ainda mais inacessível o rochedo em que estava situada a casa.
Uns construíam paliçadas em roda da esplanada: outros arrastavam para a frente da casa uma colubrina que o fidalgo por excesso de cautela mandara vir de São Sebastião havia dois anos. Toda a casa enfim apresentava um aspecto marcial, que indicava as vésperas de um combate; D. Antônio preparava-se para receber dignamente o inimigo.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.