Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Mostrou-se Anacleto impaciente; e, depois de coçar a cabeça por vezes, tornou:
– Não temos feito nada, meu caro. Vim aqui saber a razão por que deixou de ir à minha casa de um modo tão singular; e já temo bem retirar-me sem levar explicação alguma.
– Porventura não tenho eu dito bastante? esse ato é filho de uma excentricidade minha.
– E no entanto o que pensarão de nós ambos os nossos amigos?...
– Os seus amigos podem pensar o que quiserem a meu respeito: para mim é isso indiferente.
– E para mim?...
– O senhor lhes dirá que eu sou um louco, que me condeno a um inferno que eu mesmo tenho criado para atormentar-me. O senhor lhes dirá se quiser: “Aquele moço tem uma cabeça desarranjada, deixa a nossa sociedade agradável... obsequiadora e feliz, pela solidão e pelo isolamento: ele quer estar só... sempre só”.
– E se eu lhe rogasse que de novo freqüentasse a minha casa?... tomasse parte nos nossos prazeres?... fosse de novo um de nossos mais constantes companheiros dos serões?...
– Eu teria o imenso pesar de não poder servi-lo, respondeu com tristeza indizível o moço.
– Paciência, disse Anacleto; resta-me ao menos a convicção de que nunca o ofendi voluntariamente, e que fiz tudo o que estava de minha parte para provar-lhe a estima em que o tenho.
O velho ergueu-se pesaroso e quase ressentido.
Cândido apertou-lhe a mão com ardor, e disse:
– Não me desestime por isto... creia que o que faço, é o que devo fazer; creia que o que eu disse, é o que eu devia somente dizer... e o senhor, que é um dos poucos homens cuja mão me tem sido oferecida com lealdade e franqueza, sinta por mim antes piedade do que ressentimento.
– Serei o mesmo sempre; respondeu o velho dispondo-se para sair.
– Uma palavra ainda.
– O quê?... perguntou Anacleto.
– É um novo obséquio que lhe quero pedir. Provavelmente minha ausência tem admirado também a sua família – Sem dúvida.
– Eu lhe rogo que em meu nome lhe ofereça minhas desculpas, e em particular à senhora sua filha. Quisera que ela tivesse conhecimento da obsequiosa visita que recebi: do que se passou entre nós, e do que enfim julguei dever responder, explicando o meu procedimento.
O velho olhou para Cândido como desconfiado do motivo desta última recomendação.
– E a ela, e a todos, senhor, que possam mostrar-se curiosos das causas de minha irrevogável resolução, poucas palavras bastam para explicá-la, e para arredar de sua pessoa e de sua família a menor suspeita de uma ofensa ainda involuntária feita a mim, é de sobra dizer: “ele completa a sua sina – só... sempre só –”.
CAPÍTULO XXVI
DUAS AMIGAS
ERA na tarde de domingo.
Anacleto e Mariana, obrigados a ir fazer uma visita de etiqueta, tinham acabado de sair para voltar antes de duas horas.
Celina e Mariquinhas subiram ao segundo andar e entraram no quarto da primeira.
Sentaram-se defronte uma da outra, junto da pequena mesa sobre a qual escrevera a “Bela Órfã” no dia antecedente.
Estavam ambas as moças vestidas de branco, e eram ambas muito bonitas. Celina, porém, mostrava-se meio perturbada e confusa; apoiou o cotovelo na mesa, descansou o rosto na face palmar da mão, e fechou um pouco os olhos como se quisesse dormir.
Era Mariquinhas três anos mais velha que a “Bela Órfã”, tinha dezenove anos;
mas dera-lhe a natureza, com um gênio alegre e brincador, com uma tendência para faceirice e ambição de agradar, tanto talento, tanta viveza e tão fino instinto para viver no mundo e conhecê-lo, que pouco mais de quatro anos de vida de assembléias, de teatros e de reuniões tinham sido de sobra para ela dissecar a sociedade e suficientemente apreciá-la no que na sociedade há de relativo a uma moça bonita e solteira.
Mariquinhas tinha mesmo orgulho do que ela chamava – sua experiência. Discernia com suma habilidade a simples delicadeza do galanteio, o galanteio da paixão que se improvisa, e a paixão que se improvisa do verdadeiro amor.
Com sua experiência, pois, ela adivinhara que Celina estava já pagando o seu tributo de coração; e vindo nesta tarde ouvi-la confidencialmente, não quis esperar que sua amiga começasse a falar.
Conheceu que a “Bela Órfã” se achava perturbada e vergonhosa; e, querendo antes levá-la sem sentir ao principal objeto que as reunia do que começar logo a tratar dele, dirigiu-lhe a palavra em primeiro lugar:
– Estamos aqui mais à vontade, d. Celina; creio que ninguém nos virá perturbar...
– Ninguém...
– É que as moças têm mais necessidade de conversar em segredo do que os homens; creio mesmo que de cada vez que uma moça solteira fala à vista de muita gente não deixa decorrer seu perigo.
– Mas por quê?...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.