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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Além disto, uma consideração há a fazer notar em todos os passos desse mancebo: como pode ele penetrar nas noites que lhe agradam, dentro do jardim de Hugo?... quem lhe foi dizer que Honorina esperava um cabeleireiro no dia do sarau de Tomásia?... quem o foi prevenir de que Hugo voltaria com sua filha para Niterói na mesma noite?... quem o avisou de que haveria um passeio marítimo na noite da tempestade?...

Embora não se possa explicar semelhantes dúvidas, nada há mais certo do que o conhecimento prévio que o moço loiro teve de tudo aquilo; ele, pois, sabe de todos os passos de Honorina, de suas ações, de seus projetos, e, jogando com eles, ganha sempre as partidas em que compra cartas.

Em seu engraçado contender de amor, ainda não abandonou o campo uma só vez, como vencido. De duas uma: ou deixa a confusão no arraial inimigo, e de longe com isso se recreia, ou vai bater-se face a face e ganha de ordinário um troféu de vitória. Sempre imprevisto, nunca esperado, jamais o mesmo, muda de armas em cada batalha, de gênero de combate em cada campo. Há só um objeto constante nele — a sua bandeira, a divisa de seu escudo: amor!

Assim, testemunha ocular, ouvindo a conversação de duas moças horas inteiras de uma noite, ouvindo, sem ser visto, ele confunde a ambas com sua primeira carta, que nada menos significou do que a declaração da guerra do amor.

Dias depois, ridiculamente vestido e ainda pior toucado, apresenta-se diante da moça que ama, rouba-lhe um anel de madeixas e desaparece.

Mais algumas horas, e ei-lo metamorfoseado em moço loiro, sentimental e melancólico: fala, e de seus lábios escorre veneno para o coração de duas moças; olha, e de seus olhos partem setas de fogo, que fazem arder o sossego de ambas elas; tem entrado em um sarau para o qual não o convidaram, vê a gente que chega, e foge sem ser sentido, sem ser notado, deixando sua imagem e a relação de um sonho para atormentar duas belezas.

Para logo inteiramente novo, é já um rude bateleiro; que com sua voz áspera e grossa assusta Honorina, e faz-lhe fechar os olhos: aproveita-se do vento... beija-lhe uma luva, e dentro dela lança o seu hino de vitória, e ao amanhecer, na janela da moça, a flor que devia explicar o sonho!

Não muito depois responde a um canto com outro, em que demonstra que ouviu ou que sabe de um doce pensamento escapado da alma e dos lábios de Honorina. Na noite seguinte o velho pescador, como um enviado do céu, atira-se ao mar e salva aquela a quem ama. Não tem por armas mais do que cabeleiras e vestidos singulares, e à mercê deles triunfa sempre.

Quem é, pois, esse mancebo que não sabe toucar e faz-se cabeleireiro; que nada compreende de pilotagem e se improvisa patrão de batéis?...

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Meio-dia soou: o moço loiro acordou-se, e, ouvindo a voz de Sara na varanda, levantou-se e se foi sentar em uma banquinha junto dela.

— Então como vai, moço?...

— Cada vez melhor, mãe Sara; mas confesso-lhe que sinto outra vez uma fome dos meus pecados; a minha galinha estará pronta?...

— Ainda não, moço; o senhor disse que queria pela volta das duas horas da tarde. — Paciência... paciência; porém, mãe Sara, quero pedir-lhe um favor: não me chame de moço; chame-me de filho.

— Pois bem: meu filho...

— Assim... mas o que é?...

— O que é, o quê?

— Ah! eu pensei que mãe Sara me perguntava alguma coisa; como ia dizendo — meu filho...

— Não, nada perguntei; e, todavia, alguma pergunta poderia ser-lhe feita.

— O quê?...

— Eu não sou curiosa, meu filho; recebi-o em minha casa sem o conhecer; mas... cheio de sangue... que queria isso dizer?...

— Que o sangue era de minha cabeça, mãe Sara.

— E como se quebrou a sua cabeça?...

— Ora... como se quebrou?... quebrando-se; não há nada mais natural; nunca se viu uma cabeça quebrada?...

— Sim; mas era possível temer...

— Está bom... está bom, mãe Sara; falemos em outra coisa; não há nada pior do que dormir com fome.

— Por quê?...

— Porque sonha-se muito.

— Sim?... então sonhou?...

— Esta noite... muito; dois longos sonhos... olhe, mãe Sara, em parte eu gosto bastante de sonhar; se soubesse como eu tenho sido feliz com sonhos!...

E o moço pôs-se a rir.

— E sonha muitas vezes?...

— Faço ainda mais, mãe Sara: quando não posso sonhar, invento sonhos.

— Mas, meu filho, isso também é mentir; e, portanto, é pecado.

— Há certos pecados que Deus perdoa facilmente; porém, como lhe dizia, esta noite tive dois sonhos... e um com mãe Sara!

— Comigo?...

— Sem dúvida; mãe Sara é bem pobre, não é assim?...

— É verdade, mas não da graça de Deus.

— Pois eu sonhei que me ia hoje embora, e, querendo dar-lhe algum dinheiro, mãe Sara o não quis receber...

— E era isso o que havia de acontecer.

— Obrigado... obrigado... nem eu me atrevia a oferecer-lhe nada; mas o sonho continua... e amanheceu o dia de amanhã... mãe Sara acordou e achou debaixo do travesseiro uma carteira cheia de dinheiro...

(continua...)

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