Por Lima Barreto (1909)
A italiana perguntava-me o nome das plantas. Era o monjolo cheio de apófises escamosas; era a embaúba como um adorno egípcio; a tinguacita, a pindaíba, as taquaras, os cipós... Depois interessou-se pelas pequenas plantas, pelo gravata, pelo melão-de-são-caetano, pelo carrapicho e guaxima...
Era eu quem informava; o diretor, no meio daquelas vidas todas, não lhes sabia o nome, nem serventia, nem a importância.
Um bando de tiés esvoaçou por nós e a italiana perguntou:
— Mas os há mesmo assim?
E ficou um instante surpreendida que houvesse ainda daqueles pássaros nas proximidades de tantas modistas. A noite chegara-nos cheia de opressões e desejos. O doutor marchara na frente, calado, preocupado; e eu, ao lado da italiana, escolhia-lhe o melhor caminho e aspirava-lhe o perfume.
Chegamos afinal a uma casa. Lembrei-me da minha casa paterna. Era o mesmo aspecto, baixa, caiada, uma parte de tijolos, outra de pau-a-pique; em redor, uma plantação de aipins e batata-doce. Deram-nos água, ofereceram-nos café e continuamos para o Galeão que estava próximo. Quando chegamos à praia, o dia tinha agonizado de todo. Fomos a uma venda, pedimos algumas latas de sardinha, pão e vinho. Fomos servidos em velhos pratos azuis com uns desenhos chineses e as facas tinham ainda aquele cabo de chifre de outros tempos. À vista deles, dos pratos velhos e daquelas facas, lembrei-me muito da minha casa, e da minha infância. Que tinha eu feito? Que emprego dera à minha inteligência e à minha atividade? Essas perguntas angustiavam-me.
Voltamos de bote para a ponta do Caju. Durante a viagem a angústia avolumou-se-me. As pás dos remos, caindo nas águas escuras, abriam largos sulcos luminosos de minúsculas estrelas agrupadas e todo o barco vogava envolvido naquele estrelejamento, deixando uma larga esteira fosforescente.
Lembrava-me da vida de minha mãe, da sua miséria, da sua pobreza, naquela casa tosca; e parecia-me também condenado a acabar assim e todos nós condenados a nunca a ultrapassar.
A italiana conversava com o remeiro sobre a pesca. Ela conhecia a vida e fazia perguntas nítidas
Saltamos do bonde, no Campo de Sant'Ana, eu e Leda tomamos um carro; o diretor continuou para o jornal.
Em vão ela me fazia falar. Respondia-lhe por comprazer. Lembrava-me... Lembrava-me de que deixara toda a minha vida ao acaso e que a não pusera ao estudo e ao trabalho com a forca de que era capaz. Sentia-me repelente, repelente de fraqueza, de falta de decisão e mais amolecido agora com o álcool e com os prazeres... Sentia-me parasita, adulando o diretor para obter dinheiro.
Às minhas aspirações, àquele forte sonhar da minha meninice eu não tinha dado as satisfações devidas.
A má vontade geral, a excomunhão dos outros tinham-me amedrontado, atemorizado, feito adormecer em mim com seu cortejo de grandeza e de força. Rebaixara-me, tendo medo de fantasmas e não obedecera ao seu império.
O carro atravessara o Largo da Lapa e o seu caminho foi interrompido por uma aglomeração de populares. Da caleça, pude ver o que havia. Era uma mulher das muitas que povoam o largo e proximidades, que ia entre dois soldados. Recordei-me que já tinha visto aquela fisionomia. Esforcei-me por lembrar. A minha vida começou a desfilar e quando cheguei à casa da italiana, lembrei-me que era a amante do Deputado Castro.
Perguntei então a mim mesmo por que não casara aquela rapariga, por que não vivera dentro dos costumes tidos por bons. Não achei resposta, mas julguei-me, não sei por quê, um pouco culpado pela sua desgraça.
O carro chegou e eu saltei para ajudar Leda a apoiar-se. Paguei ao cocheiro e, na calçada, e a perguntou-me:
— Não entras?
— Não, obrigado.
Insistiu várias vezes, mas recusei. Vim vagamente a pé até ao Largo da Carioca, sem seguir um pensamento. Vinha triste e com a inteligência funcionando para todos os fados. Sentia-me sempre desgostoso por não ter tirado de mim nada de grande, de forte e ter consentido em ser um vulgar assecla e apaniguado de um outro qualquer. Tinha outros desgostos, mas esse era o principal. Por que o tinha sido? Um pouco devido aos outros e um pouco devido a mim. Encontrei Loberant:
— Então? perguntou maliciosamente.
— Deixei-a em casa.
— Pois se eu me tinha separado de vocês de propósito... Tolo! amos tomar cerveja...
Antes de entrar, olhei ainda o céu muito negro, muito estrelado, esquecido de que a nossa humanidade já não sabe ler nos astros os destinos e os acontecimentos. As cogitações não me passaram... Loberant, sorrindo e olhando-me com complacência, ainda repetiu:
— Tolo!
Todos os Santos, Rio de Janeiro — 1908
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.