Por Lima Barreto (1915)
O padre, no interior da igreja, continuava a pedir a Deus repouso para a alma do Senador
Clarimundo. O místico cheiro de incenso vinha até eles e o votivo perfume, votivo ao Deus da paz e da bondade, não os demovia dos seus pensamentos guerreiros.
- Entre nós, aduziu Caldas, não há mais gente que preste... Isto é um país perdido, acaba colônia inglesa...
Coçou nervoso um dos favoritos e esteve um instante a olhar o ladrilho do chão. Albernaz avançou, meio sarcástico:
- Agora não; agora a autoridade está prestigiada, consolidada, e uma era de progresso vai abrir-se para o Brasil.
- Qual o quê! Onde é que você viu um governo...
- Mais baixo, Caldas!
- ...onde é que se viu um governo que não aproveita as aptidões, abandona-as, deixa-as por aí vegetar?... Dá-se o mesmo com as nossas riquezas naturais: jazem por aí à toa!
A sineta soou e olharam um pouco a nave cheia. Pela porta, via-se uma porção de homens, todos de negro, ajoelhados, contritos, batendo nos peitos, a confessar de si para si: mea culpa, mea maxima culpa...
Uma réstia de sol coava-se por uma das aberturas do alto e resplandecia sobre algumas cabeças. Insensivelmente, os dous, na sacristia, levaram a mão ao peito e confessaram também: mea culpa, mea maxima culpa...
A missa veio a acabar e ambos entraram para o abraço da pragmática. A nave rescendia a incenso e tinha um aspecto tranqüilo de imortalidade.
Todos tinham um grande ar de compunção: amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos pareciam sofrer igualmente. Albernaz e Caldas, logo que penetraram no corpo da igreja, apanharam no ar um sentimento profundo e afivelaram-no ao rosto.
Genelício também viera; ele tinha o vício das missas das pessoas importantes, dos cartões de pêsames, dos cumprimentos em dias de aniversário. Temendo que a memória não lhe ajudasse, possuía um caderninho onde as datas aniversárias estavam assentadas e as residências também. O índice era organizado com muito cuidado. Não havia sogra, prima, tia, cunhada, de homem importante que, em dia de aniversário, não recebesse os seus parabéns, e, por morte, não o levasse à igreja em missa de sétimo dia.
O seu traje de luto era de pano grosso, pesado; e, olhando-o, lembrava-nos logo de um castigo dantesco.
Na rua, Genelício escovava a cartola com a manga da sobrecasaca e dizia ao sogro e ao almirante: - A cousa está pra acabar!... Breve...
- E se resistirem? perguntou o general.
- Qual! Não resistem. Corre que já propuseram rendição... É preciso arranjar uma manifestação ao marechal...
- Não acredito, fez o almirante. Conheço muito o Saldanha, é orgulhoso e não se entrega assim... Genelício ficou um pouco assustado com a entonação da voz do seu parente; teve medo que ele falasse mais alto, desse na vista e o comprometesse. Calou-se; Albernaz, porém, avançou:
- Não há orgulho que resista a uma esquadra mais forte.
- Forte! Uns calhambeques, homem!
Caldas continha a custo a fúria que lhe ia n’alma. O céu estava azul e calmo. Havia nele nuvens brancas, leves, esgarçadas, que se moviam lentamente, como velas, naquele mar infinito. Genelício olhou-o um pouco e aconselhou:
- Almirante não fale assim... Olhe que...
- Qual! Não tenho medo... Porcarias!...
- Bom, fez Genelício, eu tenho que ir à Rua Primeiro de Março e...
Despediu-se e saiu com o seu traje de chumbo, curvado, olhando o chão com o seu pince-nez azulado, palmilhando a rua com passo miúdo e cauteloso.
Albernaz e Caldas ainda estiveram conversando um tempo e se despediram sempre amigos, cada um com o seu desgosto e a sua decepção.
Tinham razão: a revolta veio a acabar daí a dias. A esquadra legal entrou; os oficiais revoltosos se refugiaram nos navios de guerra portugueses e o Marechal Floriano ficou senhor da baía.
No dia da entrada, acreditando que houvesse canhoneio, uma grande parte da população abandonou a cidade, refugiando-se nos subúrbios, por baixo das árvores, na casa de amigos ou nos galpões construídos adrede pelo Estado.
Era de ver o terror que se estampava naquelas fisionomias, a ânsia e a angústia também. Levavam trouxas, samburás, pequenas malas; crianças de peito, a chorar, o papagaio querido, o cachorro de estimação, o passarinho que de há muito quebrava a tristeza de uma casa pobre.
O que mais metia medo era o famoso canhão de dinamite, do “Niterói”, uma espalhafatosa invenção americana, instrumento terrível, capaz de causar terremotos e de abalar os fundamentos das montanhas graníticas do Rio.
As crianças e as mulheres, mesmo fora do alcance de seu poder, temiam ouvir o seu estrondo; entretanto, esse fantasma yankee, esse pesadelo, essa quase força da natureza, foi morrer abandonado num cais, desprezado e inofensivo.
(continua...)
BARRETO, Lima. O triste fim de Policarpo Quaresma. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2028 . Acesso em: 8 maio 2026.