Por Lima Barreto (1911)
— Não tem se dado bem?
— Tem... Mas... É preciso coisa melhor...
— Naturalmente.
— Lá na terra dele, falam muito em ele ser presidente do Estado... Eu não gosto muito... Deixar o Rio de Janeiro, ir para o mato...
— Não é mato, minha senhora.
— Qual! Não acredito! Por mais que me digam que aquilo lá tem ruas, tem teatros, famílias, não sei por que não admito. Contudo, se fizerem muito gosto, nós iremos.
Mme. Foirfable e a sua amiguinha tomaram o bonde, Benevenuto acompanhou-as com o olhar, pensando nas causas que tinham determinado esse despertar, em tantos generais e coronéis, exímias capacidades políticas; e também nas que tinham provocado os próceres lembrarem-se deles assim de uma hora para outra.
Encaminhou-se para o seu destino, sempre a pé e vagarosamente.
Chegou à travessa. Entrou. Na sala, a mãe e a filha costuravam. As duas faziam a sua tarefa com resignação e cuidado. De onde em onde, uma delas deitava a cabeça, colocava de certo modo a costura e a examinava com alegria nos olhos. Um instante, Benevenuto julgou que ofendia com seu amor a miséria daquelas mulheres; afastou o pensamento, cumprimentou e entrou. Edgarda já estava lá e livre da “toilette” pública . Abraçaram-se muito e ela teve um gesto de choro. O primo quis afastar-lhe a emoção:
— Vieste cedo...
— Vim, meu amor, vim. Não viste o préstito? Numa e papai foram.
— Vi, mas não os vi lá.
— Foram ao cemitério. Fiquei só e vim.
— Mas que é que tens?
— Nada... Nada...
— Fala!
— Não sei... Um pressentimento...
— Que é?
— Não sei, Benevenuto; não sei. Está me parecendo que vão tomar o lugar de papai e de Numa.
— É possível, mas não compreendo esse teu desgosto Se fossem empregos, se por isso a tua situação financeira fosse abalada, vá; mas continuas no mesmo; que te dá que o teu marido seja ou não deputado?
— É um desaforo! É um desaforo!
— Desaforo como? Essas funções são mesmo transitórias, tu sabes disso, minha filha.
— Mas... O que me aborrece é essa Anita, a mulher de Forfaible!
— Que tem ela?
— Quer fazer o marido governador.
— Ah! Ele é de Sepotuba?
— É... Não sabias?
— Ela acaba de dizer que tem lembrado muito o nome dele para presidir o Estado mas não sabia qual.
— Pois é verdade: são ela e o Salustiano que intrigam. Já o Macieira...
— Sê prudente, Edgarda. O teu orgulho te faz cega e apaixonada, o que vem a ser a mesma coisa. As eleições de governador ainda estão longe... Teu pai não se dá por achado... Faz o Forfaible senador agora, ele se contenta e vocês embrulham o Salustiano.
Sentada na borda da cama, a moça ficou pensando. A sua fisionomia abriuse por fim num sorriso e disse:
— É verdade!... A Anita fica até contente... Tu és uma jóia.
E abraçaram-se e beijaram-se por um tempo perdido no mais absoluto silêncio.
Quando Benevenuto deixou Edgarda o dia ia adiantado e já na rua do Ouvidor estavam de volta os romeiros ao túmulo do almirante Constâncio.
Inácio Costa tinha ainda o seu traje verde e amarelo e na cabeça a esfera azul com estrelas de papel branco. Não trazia mais a terrível lança — “À bala” — mas continuava a distribuir os versos que trazia nas fundas algibeiras da vestimenta.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.