Por Aluísio Azevedo (1895)
- O comendador não está, disse-lhe um caixeiro. Leonília perguntou a que horas o encontraria; o caixeiro respondeu, e ela saiu com o mesmo desembaraço com que entrara.
Teobaldo, mal ouviu bater a portinhola do carro, atirou para o lado a correspondência, pôs o chapéu, abandonou o escritório, tomou um tílburi e seguiu na pista da cortesã. Quando esta se apeava à porta de casa, ele surgiu ao lado dela.
- Que deseja de mim? perguntou Leonília parando à entrada.
- Pedir-lhe um favor.
- Agora não lhe posso prestar atenção. Adeus.
- Olha! Ouve!
Ela não respondeu, arrepanhou as saias, galgou a escada e Teobaldo ouviu bater em cima uma porta fechada com arremesso.
Tornou à rua estalando de cólera.
- Maldita mulher! pensou ele. Maldita mulher, que tanto mal me faz!
E, quando mais reconsiderava as vantagens do seu casamento, mais furioso ficava contra Leonília e mais apaixonado se supunha pela graciosa filha do comendador.
Meteu-se de novo no tílburi e mandou tocar a toda força para o colégio onde trabalhava o Coruja. Era uma idéia que lhe aparecera de repente.
E assim que viu o amigo:
- Arranja uma saída já! disse-lhe, sacudindo a mão dele entre as suas. Preciso de ti no mesmo instante. É um caso urgente. Vem daí!
O Coruja, meio contrariado por interromper a sua obrigação, mas ao mesmo tempo já em sobressalto com as palavras do amigo, não se fez esperar muito.
- Então, que temos? perguntou logo que se viu a sós com Teobaldo na rua.
- André, preciso que me prestes um serviço, um verdadeiro serviço de amigo: Leonília quer desmanchar o meu casamento; é necessário convence-la do contrário. Só tu me poderás fazer isso; és o único homem sério de que disponho! Vai ter com ela e chama-a à razão! Fala-lhe com franqueza, promete-lhe o que entenderes, contanto que a convenças' - Ela ameaçou-te de fazer qualquer coisa?
- Nem só ameaçou, como até já foi ao escritório do comendador procurá-lo!.
- Falou-lhe?
- Não porque felizmente ele não estava em casa, mas volta amanhã sem dúvida ou talvez ainda hoje mesmo, e tu bem sabes que, se ela fala ao comendador, estou perdido! e adeus casamento, adeus futuro, adeus tudo!
- E preciso então ir já?
- Sim, imediatamente! Olha! mete-te no tílburi e vai, anda!
Coruja fez ainda algumas perguntas, tomou certas informações e afinal seguiu para a casa de Leonília.
Veio ela própria recebe-lo, fê-lo entrar para a sala e assentou-se-lhe ao lado.
Só então o pobre André avaliou o alcance do seu compromisso; achou a comissão mais difícil do que julgara e a si próprio mais fraco do que supunha; mas vencendo o acanhamento, principiou sem transição:
- Sabe, moça, eu venho aqui para lhe pedir um favor...
- O senhor é o amigo de Teobaldo, não é verdade?
- Sou eu mesmo.
- O Coruja, não?
- Justamente.
- Que favor deseja pedir?
- Que a senhora não faça a desgraça do nosso amigo.
- Como?
- Desmanchando-lhe o casamento.
- Ele então já lhe falou nisso?
- Já, e eu vim pedir à senhora que tenha pena do pobre rapaz.
- E ele teve pena de mim, porventura? Ele não calculou que com esse casamento fazia a minha desgraça? Não se lembrou de que há já um bom par de anos que nos amamos e eu não poderia de braços cruzados vê-lo atirar-se nos de outra mulher?... Ele não calculou tudo isso?
- Mas é necessário, replicou André.
- Para quem? perguntou a rapariga.
- Para ele.
- Pois também é necessário para mim que ele não case.
- Não tanto...
- Não tanto? Ora essa! Por que?
- Porque a senhora já tem, boa ou má, a sua vida constituída, e ele precisa fazer um futuro, precisa arranjar uma posição.
- Ora!
- E que talvez a senhora não esteja bem informada, as coisas nunca se acharam para ele tão ruins! Teobaldo está em uma situação crítica, muito critica; se não consegue realizar este casamento, fica perdido, perdido para sempre, e, como lhe conheço bem o gênio, receio pela vida dele!...
- Outro tanto não faz ele a meu respeito.
- Ah! mas a senhora não se vê nos mesmos apuros...
- Engana-se, meu amigo, estou até em muito piores condições. Todo este luxo que o senhor tem defronte dos olhos não significa opulência, significa miséria!... Sou mais infeliz do que qualquer das minhas companheiras, porque tenho coração, porque sinto e conheço o terreno em que piso, e sei avaliar cada passo que dou neste tristíssimo caminho de minha vida! Ah! vêem-me rir; vêem-me zombar de tudo e de todos, e no entanto só eu sei o que vai cá por dentro! Sofro e sofro mais do que ninguém! Cada beijo que tiro dos meus lábios para vender, é mais uma fibra que me estala nalma! Oh! daria todo o meu sangue para não ser quem sou!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.